sábado, 28 de abril de 2012

As sete súplicas do Pai Nosso


O Pai Nosso, modelo de toda oração, consta de sete súplicas ou pedidos. Inicia-se com um principio eterno que dá titulo a oração: Pai Nosso que estais no céu. A partir daí vem os sete pedidos.

Santificado seja o vosso nome – o primeiro pedido nos faz reconhecer a Santidade do Pai. O pedido é na realidade que saibamos reconhecer essa santidade e só tem valor quando feito em nome de Jesus.

Venha a nós o vosso reino – o segundo pedido pelo qual rogamos a presença do reino de Deus já, aqui na terra. Que a Palavra Viva do Senhor se faça presente, enriquecendo-nos com os dons do Espírito Santo.

Seja feita vossa vontade assim na terra como no céu – no terceiro pedido suplicamos ao Pai que nossa vontade se una à vontade de Cristo, para que possamos alcançar o direito à Salvação, fazendo que a Sua vontade prevaleça, mesmo quando diferente daquilo que esperamos.    

O pão nosso de cada dia nos dai hoje – neste quarto pedido contamos com a providência divina.  Que nos seja concedido o alimento que nos sustenta, necessário a nossa subsistência, mesmo diante de dificuldades materiais que eventualmente possam advir.

Perdoai nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido – neste quinto pedido, seguido de uma condição, nos reconciliamos com o Pai desde que façamos a nossa parte cumprindo a condição feita com o pedido.  

Não nos deixeis cair em tentação – neste pedido, o sexto, rogamos a deus que nos dê força, não permitindo que o pecado tome conta de nossa vida. Que pelos dons do discernimento, da sabedoria e da fortaleza nos seja concedida a graça de vencer todas as tentações que nos assolam.

Livrai-nos do mal – na sétima e última súplica pedimos que não sejamos submetidos ao mal. Aqui o mal não é sinônimo de maldade, mas o próprio Satanás, a personificação do mal. Sabemos que Satanás já foi definitivamente derrotado por Jesus e quem se entrega a Jesus não teme o mal, pois com Cristo somos mais que vencedores; afinal se Deus é por nós, quem será contra nós?

Senhor, vosso é o reino, o poder e a glória para sempre!


sábado, 21 de abril de 2012

O Demônio existe?


Que diz a Igreja sobre a sua existência? A julgar pela atitude da mídia e de certas correntes filosóficas e teológicas contemporâneas, "também o diabo está (ou parece) morto". Contudo, não é esta a posição do Papa Paulo VI ou João Paulo II, do Catecismo da Igreja Católica. Se não, vejamos: O último pedido do Pai Nosso "Mas livrai-nos do mal" faz parte da oração sacerdotal de Jesus (Jo 17,15): "Não te peço que os tires do mundo, mas que os guardes do Maligno". O Catecismo da Igreja Católica (nº2850) diz que o "nós" do Pai Nosso lembra a solidariedade para o bem e para o mal existentes entre os filhos do mesmo Pai.

O Papa Paulo VI, na audiência pública de 15 de novembro de 1972, esclarece sobre sinais da presença da ação diabólica. Embora às vezes pareçam tornar-se evidentes, é necessário ter muito cuidado no discernimento. Acrescenta ele: "Podemos admitir a sua ação sinistra onde a negação de Deus se torna radical, sutil ou absurda; onde o engano se revela hipócrita, contra a evidência da verdade; onde o amor é anulado por um egoísmo frio e cruel; o nome de Cristo é empregado com ódio consciente e rebelde; onde o espírito do Evangelho é falsificado e desmentido; onde o desespero se manifesta como a última palavra etc".

A afirmação da existência de espíritos decaídos, demônios, Satanás só tem sentido em um contexto mais amplo. A presença de anjos e demônios jamais será aceita à margem da fé cristã. A oposição a essa crença tradicional da Igreja surge, com certo tipo da História da Religião, dentro de um ambiente racionalista e iluminista. A argumentação daí resultante é alimentada pelas doutrinas propagadas por povos vizinhos aos judeus. Os relatos do Antigo Testamento, segundo eles, não trazem uma revelação, mas simplesmente reproduzem mitos das culturas pagãs. Nessa linha de pensamento, o conhecido exegeta protestante, Rudolf Bultmann em sua obra "Kerygma e Mythos", sentencia: "Já não é possível usar luz elétrica e rádio (...) e ao mesmo tempo acreditar no mundo de espíritos e milagres do Novo Testamento". Interessante observar que são exatamente teólogos e pensadores protestantes de renome, como Karl Barth, que tem outra posição "por causa da tradição bíblica e por causa do seu valor na piedade do povo cristão", o tema dos anjos não pode ser preterido pela teologia. Contudo, isso não impede que alguns teólogos católicos continuem numa profunda reticência, temerosos talvez, de serem taxados de "tradicionalistas" caso tratem, dentro da nossa crença, o tema de anjos e demônios.

Ao falar em Satanás é importante evitar dois erros: o de absolutizar o maligno, como se fosse uma terrível ameaça, em cada momento, a cada pessoa mesmo reta, verdadeira, humilde e fiel. O demônio pode influenciar através das faculdades mentais, e das tendências da natureza. Ele, contudo, não tem poder sobre o íntimo da pessoa, pois sua liberdade, sua consciência pertencem diretamente a Deus. Uma pessoa generosa, que procura guardar a retidão e pureza de seu modo de agir, e mesmo a criança que reza com amor e confiança é mais forte do que Satanás. De outro lado, há o erro do racionalismo, supondo não existir aquilo que não podemos ver e experimentar com nossos sentidos. Nesse caso está o Demônio.

O Novo Testamento fala freqüentemente no Diabo ou Satanás e em demônios. E mostra seu lugar na história da salvação, tanto no evento central da vida de Jesus Cristo, como na Igreja. O anjo decaído não pode ver Deus em Jesus; só pode constatar com pavor e horror que este "profeta", superior a todos os outros, é o perigo definitivo para as aspirações do inferno. Jesus é apresentado como Aquele que venceu Satanás. O maligno derrotado consegue ainda atrapalhar e seduzir. O Novo Testamento não manifesta interesse especulativo algum em descrever dramaticamente o universo dos demônios, como o faziam certos livros apócrifos. Não existe uma "demonologia". O Novo Testamento tem, entretanto, um forte interesse em demonstrar que Satanás e seus espíritos subalternos se apresentam no mundo como adversários da salvação, de Jesus e de seus fiéis. Seu nome é "Diabo e Satanás" (Mt 4,1), "inimigo e tentador", "Maligno" (Mt 13,19; Ef 6,16), "príncipe do mundo" (Jo 12,31), "acusador" (Ap 12,10), "dragão", "serpente" (Ap 12), "chefe dos demônios" (Mc 3,22) e assim por diante.

Jesus não é um exorcista, mas o iniciador do Reino do Pai e do seu poder. Ele é a imagem de Deus. A luta contra Satanás e a vitória definitiva sobre ele, é parte constitutiva deste anúncio. Cristo, ele mesmo interpreta sua presença assim: "O príncipe deste mundo está sendo jogado fora" (Jo 12,31). É claro que nesses acontecimentos existem também elementos de doença.

O Magistério da Igreja procurou sempre manter um equilíbrio entre tendências de absolutizar o Maligno e, hoje, de considerá-lo insignificante. O Concílio Vaticano II não tratou o assunto de modo explícito; somente citou-o de passagem dizendo que em Cristo "Deus nos reconciliou consigo e entre nós, arrancando-nos da servidão do diabo e do pecado" ("Gaudium et Spes" 22.3; 2.2); e o maligno continua nos tentando ("Lumen Gentium" 16; 48,4; "Ad Gentes" 9).

Importa observar que os demônios não são apenas um poder anônimo, impessoal. Mas são espíritos criados, pessoas. Por isso, e só por isso, o Concílio pode dizer deles: "Segundo sua natureza, criados por Deus como bons, mas por si próprios se tornaram maus". Na doutrina sobre o demônio, a Igreja sublinha de um lado a infinita bondade de Deus Criador. E, de outro lado, mostra a grandeza da liberdade da criatura que sendo imagem de Deus, é exatamente por esse motivo, submetida a provas e tentações. É insistente a palavra de Jesus a todos nós: "Vigiai, porque não conheceis nem o dia nem a hora" (Mt 25,13; 13,35. 37).

Em conclusão, devem se erradicar dois comportamentos errôneos: o que faz do diabo um mito e aquele outro que o vê em toda parte.

Dom Eugênio de Araújo Sales
Bispo Emérito do Rio de Janeiro

terça-feira, 17 de abril de 2012

Nota da CNBB sobre o aborto de Feto “Anencefálico”


Referente ao julgamento do Supremo Tribunal Federal sobre a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº 54

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB lamenta profundamente a decisão do Supremo Tribunal Federal que descriminalizou o aborto de feto com anencefalia ao julgar favorável a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental n. 54. Com esta decisão, a Suprema Corte parece não ter levado em conta a prerrogativa do Congresso Nacional cuja responsabilidade última é legislar.          

Os princípios da “inviolabilidade do direito à vida”, da “dignidade da pessoa humana” e da promoção do bem de todos, sem qualquer forma de discriminação (cf. art. 5°, caput; 1°, III e 3°, IV, Constituição Federal), referem-se tanto à mulher quanto aos fetos anencefálicos. Quando a vida não é respeitada, todos os outros direitos são menosprezados, e rompem-se as relações mais profundas.       Legalizar o aborto de fetos com anencefalia, erroneamente diagnosticados como mortos cerebrais, é descartar um ser humano frágil e indefeso. A ética que proíbe a eliminação de um ser humano inocente, não aceita exceções. Os fetos anencefálicos, como todos os seres inocentes e frágeis, não podem ser descartados e nem ter seus direitos fundamentais vilipendiados!

A gestação de uma criança com anencefalia é um drama para a família, especialmente para a mãe. Considerar que o aborto é a melhor opção para a mulher, além de negar o direito inviolável do nascituro, ignora as consequências psicológicas negativas para a mãe. Estado e a sociedade devem oferecer à gestante amparo e proteção

Ao defender o direito à vida dos anencefálicos, a Igreja se fundamenta numa visão antropológica do ser humano, baseando-se em argumentos teológicos éticos, científicos e jurídicos. Exclui-se, portanto, qualquer argumentação que afirme tratar-se de ingerência da religião no Estado laico. A participação efetiva na defesa e na promoção da dignidade e liberdade humanas deve ser legitimamente assegurada também à Igreja.

A Páscoa de Jesus que comemora a vitória da vida sobre a morte, nos inspira a reafirmar com convicção que a vida humana é sagrada e sua dignidade inviolável.

Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, nos ajude em nossa missão de fazer ecoar a Palavra de Deus: “Escolhe, pois, a vida” (Dt 30,19).

Cardeal Raymundo Damasceno Assis
Arcebispo de Aparecida
Presidente da CNBB

Leonardo Ulrich Steiner
Bispo Auxiliar de Brasília
Secretário Geral da CNBB


domingo, 15 de abril de 2012

Divina Misericórdia


Ao anunciar o querigma, o primeiro item apresentado é o amor de Deus. Apresentamos o Pai amoroso, o “Abba”, carinhosamente o “Paizinho”; mostramos quão grande e incondicional é esse amor. Contudo muitos se fecham e de certa forma não crêm ou aceitam esse amor; não sinto e não tenho motivos para acreditar nesse amor, não valho nada, Deus não me enxerga, dizem. Costumo então comparar esse amor com o ar que nos cerca: não o vemos, às vezes não o sentimos, mas sabemos que ele existe e nos envolve. Assim é o amor de Deus; muitos não o sentem, não o percebem, mas como o ar, ele existe e nos cerca. Para perceber o ar (que é matéria) basta respirar fundo, então o sentimos. Para perceber o amor misericordioso do Pai (que é sentimento) é necessário se abrir por inteiro e tomar a decisão de assumir para si esse amor, apesar dos pesares que possam estar nos assolando; é então questão de decisão pessoal, de vontade. Não que o amor de Deus dependa da nossa vontade, não é isso, ele é constantemente derramado sobre todos indistintamente, mas para senti-lo é preciso que o aceitemos e assim tomamos posse dele.

No livro do profeta Isaias, capitulo 43, versículo 4a, a palavra de Deus nos fala: “Por que és precioso aos meus olhos, porque eu te aprecio e te amo.” Ele revela que somos importantes, estimados, nos tem apreço, que somos amados. Em Salmos 144(145),9   o salmista experienciando Deus, nos revela: “O Senhor é bom para com todos, e sua misericórdia se estende a todas as suas obras.” E somos todos, bons ou maus, justos ou pecadores, obras primas de Deus. Recentemente ouvimos numa pregação que somos frutos do amor de Deus, o transbordante e incontido amor de Deus, pois fomos criados no transbordamento desse amor. Isto é mais que lindo e poético, é verdadeiramente verdade verdadeira! Assim mesmo, extremamente redundante.

Esse amor incontido e transbordante se manifesta na misericórdia. Misere(miséria) + cordes(coração): o coração amoroso de Deus debruçado sobre nossa miséria. Somos pequenos, mas Deus nos tem apreço, ou seja, nos eleva em graça; isto é misericórdia. Não temos valor, mas para Ele somos preciosos; isto é misericórdia. Por isso, como Sta. Faustina podemos afirmar: “Nosso pecado é uma pequenina gota no oceano da misericórdia de Deus”. Que possamos viver envolvidos no amor imenso de Deus Pai, mergulhados na Sua infinita misericórdia e nos sentirmos restaurados em nossa dignidade de filhos e não mais coisas sem valor. A Divina Misericórdia nos sustenta.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

O braço do crucifixo


Numa antiga catedral, pendurado a uma grande altura, está um enorme crucifixo de prata que possui duas particularidades. A primeira é a coroa de espinhos sobre a cabeça da estátua de Jesus: toda feita em ouro maciço e ornamentada de pedras preciosas. O seu valor é incalculável. A segunda particularidade é que o braço direito da imagem de Jesus está afastado da cruz e pende no vazio. Uma história explica o que aconteceu.

Numa noite de muitos anos atrás, um ladrão corajoso e com jeito de acrobata planejou roubar a esplêndida coroa de ouro e pedras preciosas. Amarrou uma corda numa das janelas ao redor da abóbada central, acima do crucifixo, e desceu por ela até a cruz. No entanto a coroa estava solidamente fixada na cabeça da estatua e o ladrão tinha só uma faca para tirá-la. Enfiou a faca de baixo da coroa e começou a mexer com todas as suas forças. Pelejou por muito tempo suando e bufando. A lâmina da faca quebrou, e a corda também se desprendeu da janela porque não aguentou tanta agitação. O ladrão ia se espatifar no chão da catedral, mas, de repente, o braço do crucifixo o agarrou e o segurou. Sorte grande a do ladrão! Na manhã seguinte, os zeladores da igreja o encontraram lá em cima, são e salvo. O braço do crucifixo, ainda, o estava segurando. A história não revela mais detalhes, portanto não dá para conferir, mas acolhemos com simplicidade a mensagem.
 
Quantos planos de reformas, bonitos e bem estudados em si, não saem do papel simplesmente porque ninguém quer renunciar a nada, porque todos querem - ou queremos - ficar agarrados aos nossos privilégios, disfarçados, às vezes, de direitos? Hoje parece impensável, vergonhoso e sinal de derrota, perder alguma coisa. Perder algo, fique claro, para que outros possam ganhar em dignidade, saúde, felicidade e vida plena. Assistimos a uma disputa desenfreada para conseguir mais. Qualquer coisa serve: dinheiro, prestígio, poder. Como se tudo fosse sem fim e sem limites. Jesus fala de "perder" não um pouco do nosso salário, um jogo, ou uma disputa eleitoral, mas de perder, doando-a, a nossa própria vida. É quando a doamos que encontraremos novamente, bem guardada, como um tesouro imperecível no céu.

Somos todos, um pouco, como aquele ladrão da catedral. Queremos a coroa de ouro exclusivamente para nós. Jesus quer nos segurar nos seus braços para nos salvar do abismo da ganância. Esta conduz ao esquecimento - que depois é a morte - do nosso próximo. Seguindo Jesus no caminho da vida oferecida seremos abençoados por Deus e pelos pobres. Salvando a vida deles, salvaremos também a nossa para sempre.
de um artigo de Dom Pedro José Conti-Bispo de Macapá (AP)
 
 



sábado, 7 de abril de 2012

Jesus ressuscitou de verdade?

A Igreja não tem dúvida em afirmar que a Ressurreição de Jesus foi um evento histórico e transcendente. S. Paulo escrevia aos Coríntios pelo ano de 56: “Eu vos transmiti… o que eu mesmo recebi: Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras. Foi sepultado, ressuscitado ao terceiro dia, segundo as Escrituras. Apareceu a Cefas, e depois aos Doze” (1Cor 15,3-4). O apóstolo fala aqui da viva tradição da Ressurreição, que ficou conhecendo.

O primeiro acontecimento da manhã do Domingo de Páscoa foi a descoberta do sepulcro vazio (cf. Mc 16, 1-8). Ele foi a base de toda a ação e pregação dos Apóstolos e foi muito bem registrada por eles. São João afirma: “O que vimos, ouvimos e as nossas mãos apalparam isto atestamos” (1 Jo 1,1-2). Jesus ressuscitado apareceu a Madalena (Jo 20, 19-23); aos discípulos de Emaús (Lc 24,13-25), aos Apóstolos no Cenáculo, com Tomé ausente (Jo 20,19-23); e depois, com Tomé presente (Jo 20,24-29); no Lago de Genezaré (Jo 21,1-24); no Monte na Galiléia (Mt 28,16-20); segundo S. Paulo “apareceu a mais de 500 pessoas” (1 Cor 15,6) e a Tiago (1 Cor 15,7).

Toda a pregação dos Discípulos estava centrada na Ressurreição de Jesus. Diante do Sinédrio Pedro dá testemunho da Ressurreição de Jesus (At 4,8-12). Em At 5,30-32 repete. Na casa do centurião romano Cornélio (At 10,34-43), Pedro faz uma síntese do plano de Deus, apresentando a morte e a ressurreição de Jesus como ponto central. S. Paulo em Antioquia da Pisídia faz o mesmo (At 13,17-41).

A primeira experiência dos Apóstolos com Jesus ressuscitado, foi marcante e inesquecível: “Jesus se apresentou no meio dos Apóstolos e disse: “A paz esteja convosco!” Tomados de espanto e temor, imaginavam ver um espírito. Mas ele disse: “Por que estais perturbados e por que surgem tais dúvidas em vossos corações? Vede minhas mãos e meus pés: sou eu! “Apalpai-me e entendei que um espírito não tem carne nem ossos, como estais vendo que eu tenho”. Dizendo isto, mostrou-lhes as mãos e os pés. E, como, por causa da alegria, não podiam acreditar ainda e permaneciam surpresos, disse-lhes: “Tendes o que comer?” Apresentaram-lhe um pedaço de peixe assado. Tomou-o então e comeu-o diante deles”. (Lc 24, 34ss)

Os Apóstolos não acreditavam a principio na Ressurreição do Mestre. Amedrontados, julgavam ver um fantasma, Jesus pede que o apalpem e verifiquem que tem carne e ossos. Nada disto foi uma alucinação, nem miragem, nem delírio, nem mentira, e nem fraude dos Apóstolos, pessoas muito realistas que duvidaram a principio da Ressurreição do Mestre. A custo se convenceram. O próprio Cristo teve que falar a Tomé: “Apalpai e vede: os fantasmas não têm carne e osso como me vedes possuir” (Lc 24,39). Os discípulos de Emaús estavam decepcionados porque “nós esperávamos que fosse Ele quem restaurasse Israel” (Lc 24, 21).

Com os Apóstolos aconteceu o processo exatamente inverso do que se dá com os visionários. Estes, no começo, ficam muito convencidos e são entusiastas, e pouco a pouco começam a duvidar da visão. Já com os discípulos de Jesus, ao contrário, no princípio duvidam. Não crêem em seguida na Ressurreição. Tomé duvida de tudo e de todos e quer tocar o corpo de Cristo ressuscitado. Assim eram aqueles homens: simples, concretos, realistas. A maioria era pescador, não eram nem visionários nem místicos. Um grupo de pessoas abatidas, aterrorizadas após a morte de Jesus. Nunca chegariam por eles mesmos a um auto-convencimento da Ressurreição de Jesus. Na verdade, renderam-se a uma experiência concreta e inequívoca. Impressiona também o fato de que os Evangelhos narram que as primeiras pessoas que viram Cristo ressuscitado são as mulheres que correram ao sepulcro. Isto é uma mostra clara da historicidade da Ressurreição de Jesus; pois as mulheres, na sociedade judaica da época, eram consideradas testemunhas sem credibilidade já que não podiam apresentar-se ante um tribunal. Ora, se os Apóstolos, como afirmam alguns, queriam inventar uma nova religião, por que, então, teriam escolhido testemunhas tão pouco confiáveis pelos judeus? Se os evangelistas estivessem preocupados em “provar” ao mundo a Ressurreição de Jesus, jamais teriam colocado mulheres como testemunhas.

Os chefes dos judeus tomaram consciência do significado da Ressurreição de Jesus, e, por isso, resolveram apaga-la: deram aos soldados uma vultosa quantia de dinheiro para negá-la (Mt 28, 12-15). A ressurreição corporal de Jesus era professada tranqüilamente pela Igreja nascente, sem que os judeus ou outros adversários a pudessem apontar como fraude ou alucinação.

Eles não tinham disposições psicológicas para “inventar” a notícia da ressurreição de Jesus ou para forjar tal evento. Eles ainda estavam impregnados das concepções de um messianismo nacionalista e político, e caíram quando viram o Mestre preso e aparentemente fracassado; fugiram para não ser presos eles mesmos (Cf. Mt 26, 31s); Pedro renegou o Senhor (cf. Mt 26, 33-35). O conceito de um Deus morto e ressuscitado na carne humana era totalmente alheio à mentalidade dos judeus.

E a pregação dos Apóstolos era severamente controlada pelos judeus, de tal modo que qualquer mentira deles seria imediatamente denunciada pelos membros do Sinédrio (tribunal dos judeus). Se a ressurreição de Jesus, pregada pelos Apóstolos não fosse real, se fosse fraude, os judeus a teriam desmentido, mas eles nunca puderam fazer isto.

Jesus morreu de verdade, inclusive com o lado perfurado pela lança do soldado. É ridícula a teoria de que Jesus estivesse apenas adormecido na Cruz. Os vinte longos séculos do Cristianismo, repletos de êxito e de glória, foram baseados na verdade da Ressurreição de Jesus. Afirmar que o Cristianismo nasceu e cresceu em cima de uma mentira e fraude seria supor um milagre ainda maior do que a própria Ressurreição do Senhor.

Será que em nome de uma fantasia, de um mito, de uma miragem, milhares de fiéis enfrentariam a morte diante da perseguição romana? É claro que não. Será que em nome de um mito, multidões iriam para o deserto para viver uma vida de penitência e oração? Será que em nome de um mito, durante já dois mil anos, multidões de homens e mulheres abdicaram de construir família para servir ao Senhor ressuscitado? Será que uma alucinação poderia transformar o mundo? Será que uma fantasia poderia fazer esta Igreja sobreviver por 2000 anos, vencendo todas as perseguições (Império Romano, heresias, nazismo, comunismo, racionalismo, positivismo, iluminismo, ateísmo, etc.)? Será que uma alucinação poderia ser a base da religião que hoje tem mais adeptos no mundo (2 bilhões de cristãos)? Será que uma alucinação poderia ter salvado e construído a civilização ocidental depois da queda de Roma? Isto mostra que o testemunho dos Apóstolos sobre a Ressurreição de Jesus era convincente e arrastava, como hoje.

Na verdade, a grandeza do Cristianismo requer uma base mais sólida do que a fraude ou a debilidade mental. É muito mais lógico crer na Ressurreição de Jesus do que explicar a potência do Cristianismo por uma fantasia de gente desonesta ou alucinada. Como pode uma fantasia atravessar dois mil anos de história, com 266 Papas, 21 Concilios Ecumênicos, e hoje com cerca de 4 mil bispos e 416 mil sacerdotes? E não se trata de gente ignorante ou alienada; muito ao contrário, são universitários, mestres, doutores.

Prof. Felipe Aquino


sábado, 31 de março de 2012

Retirada dos crucifixos do TJ/RS


Não é demais voltar ao assunto quando não passa um dia sem que a mídia abra espaços para a decisão do Conselho de Magistratura do TJ/RS. Viva! Mais uma façanha do Rio Grande. Noutra despachamos a Ford. Nesta, os crucifixos, enxotados e empacotados.
                                                     
 
Há uma peculiaridade passando batida nessa história. Quem é, mesmo, que quer a remoção? Até hoje, não vi entre as manifestações de apoio à determinação uma única que tenha sido emitida por qualquer das centenas de confissões religiosas em consideração às quais se diz que foi decretada. Embora o relator do processo tenha escrito que o cidadão judeu, o muçulmano, o ateu, ou seja, o não cristão, tem o mesmo direito constitucionalmente assegurado de não se sentir discriminado pela ostentação de símbolo expressivo de outra religião em local público, ninguém, de crença alguma, se manifestou, mesmo que fosse para um simples e protocolar "muito obrigado". Por quê? Por que lhes ficou inequívoco terem sido usados para intenções que também lhes são hostis

As próprias entidades que requereram a retirada dos crucifixos articulam-se em torno de comportamentos sexuais e não sobre religião ou religiões. Nesse mesmo viés, se observamos com acuidade iniciativas análogas, será forçoso perceber que tampouco provêm de crentes ou ateus num sentido genérico, mas de pequena parcela destes últimos - os ateus militantes. Suas manifestações, sistematicamente, se voltam contra o que os símbolos representam, ou seja, as religiões, cuja influência na sociedade anseiam por eliminar. Mostram, especialmente em relação ao cristianismo, animosidade e um conhecimento de panfleto. Sempre mencionam Cruzadas, Inquisição e Galileu, mas parecem incapazes de escrever meia página séria sobre esses temas pois tudo que repetem, vida afora, foi o que ouviram por aí, servido como nutrição ideológica. Desculpem-me o sarcasmo, mas passei os últimos dias lendo tais tolices aportadas anacronicamente como se fossem argumentos para justificar a retirada dos crucifixos! Pior do que desconhecer pelo não uso da inteligência é conhecer raivosamente pelo uso do fígado. Corre-se o risco de passar por cima do tesouro e ir catar lixo logo adiante. Esse exótico discernimento, assumido nos poderes de Estado, resulta danoso à identidade nacional, ofensivo à história do Brasil, depreciativo ao que há de melhor na civilização ocidental e agressivo a um bem do espírito e da cultura considerado precioso pela imensa maioria do povo deste país! Mas a história ensina: é preciso gerar descrédito ao que merece respeito para, depois, exigir respeito ao que não merece.

De um artigo de Percival Puggina – Paredes Nuas

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quarta-feira, 28 de março de 2012

Semana Santa


Esta prestes a iniciar a semana das semanas para nós católicos: a SEMANA SANTA! Quaresma é tempo forte de oração, conversão, adoração que culmina na Semana Santa, na Páscoa, ápice da nossa fé. O feriadão da Semana Santa está chegando. Para os não católicos um fim de semana cheio, no calor das praias ou no friozinho da montanha. Mas para os católicos – católicos verdadeiros, com fé atuante – é tempo de reflexão e participação das celebrações. Vai viajar? Viaje, mas participe das celebrações na igreja local.

Fica aqui o convite: dia 1 de abril- Domingo de Ramos; onde celebramos a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém.

5 de abril-Quinta feira Santa; lembramos a angustia de Jesus no Getsamani, a instituição da Eucaristia, o sacerdócio, na  Missa do lava-pés. Ao término da Celebração Eucarística somos convocados à Vigília da Paixão, onde relembramos a vigília de Jesus no Horto das Oliveiras.

6 de abril-Sexta feira da Paixão; quando recordamos de modo contrito, o sacrifício de amor do Cristo por cada um de nós. O único dia em todo o ano em que não há Missa. Acontece uma cerimônia litúrgica em que a comunhão é dada com a reserva eucarística. 

7 de abril-Sábado de Aleluia; o grande dia, a Vigília Pascal com a proclamação da Páscoa num canto de júbilo anunciando a RESSURREIÇÃO DO SENHOR.

8 de abril-Domingo da Páscoa; com a ressurreição Jesus prova que a morte não é o fim e que Ele é verdadeiramente Filho de Deus. O silencio contrito de sexta feira transforma-se em esperança e alegria.

Participe ativamente da Semana Santa em sua paróquia.




sábado, 24 de março de 2012

A fé e a razão!


As grandes universidades nasceram católicas e cresceram à sombra da Igreja.


É bem provável que você já tenha ouvido falar de uma eterna luta entre a fé e a razão. A idéia básica desse ilusório conflito é a de que o ato de fé envolve algo que não se pode sentir ou compreender e que, portanto, você precisa optar: ou conserva a fé e perde a cabeça ou conserva a cabeça e perde a fé. Desde antes de surgir a imprensa, toneladas de pergaminhos foram gastas para os tiroteios filosóficos que a questão proporciona. Era a fé cega (crê ou morre) trocando chumbo com a razão cega (não crê e morre igual).

Quando os autores clássicos foram redescobertos, por volta do século XII, viu-se que a discussão apenas atualizava algo que noutro nível já tinha sido abordado por Platão e Aristóteles. E o achado não fez mais do que acrescentar sofisticada pólvora ao arsenal dos intelectuais.

O noticiário desse antigo bate-boca chegou até nós com a manchete de que a Igreja sempre se opôs à evolução das ciências e do pensamento, desejosa de manter a humanidade no nível de estupidez necessário à prosperidade da fé. Nada mais injusto e falso!A discussão sobre as relações entre a fé e a razão começou e evoluiu em ambiente católico, foi proporcionada durante séculos pelos maiores pensadores da Igreja e só encontrou solução dentro dela. Muitos santos e doutores da Igreja - Santo Anselmo, São Bernardo, Santo Alberto Magno, São Boaventura, São Tomás de Aquino, entre outros - tomaram trincheira nesse debate, fazendo com que, aos poucos, as idéias clareassem. A eles se juntaram sucessivas gerações de brilhantes intelectuais (em especial dominicanos e franciscanos), cujo prodigioso saber extasiava os estudantes das antigas universidades. Vale lembrar que todas as grandes universidades nasceram católicas e cresceram à sombra da Igreja.

Foi com seus próprios mestres que a Igreja aprendeu que a razão e a fé se aperfeiçoam reciprocamente. Tornando-se também nesse aspecto, mãe da civilização e da cultura, a Igreja criou as condições para que surgissem as correntes filosóficas apartadas da Teologia. Muitas delas, mais tarde, se voltariam contra a Igreja e contra a própria humanidade.

A razão e a fé efetivamente se aperfeiçoam. Mas quanta razão na fé que manifesta São Bernardo: "Que me importa a filosofia? Meus mestres são os apóstolos; eles não me ensinaram a ler Platão nem a deslindar as sutilezas de Aristóteles mas me ensinaram a viver. E acreditai: essa não é uma pequena ciência". E não é mesmo!

Percival Puggina
Fonte:
www.puggina.org

quarta-feira, 21 de março de 2012

Oração pela família


Senhor nós vos louvamos pela nossa família e agradecemos a vossa presença em nosso lar.

Iluminai-nos para que sejamos capazes de assumir nosso compromisso de fé na Igreja e de participar da vida de nossa comunidade.

Ensina-nos a viver a Vossa palavra e o Novo mandamento do amor, a exemplo da família de Nazaré.

Dai-nos Senhor, boa saúde, trabalho com salário justo e um lar onde possamos viver felizes.

Ensinai-nos a partilhar o que temos com os mais necessitados. Dai-nos a graça de aceitar com fé e serenidade a doença e a morte quando se aproximarem de nossa família.

Ajudai-nos a respeitar e incentivar a vocação de cada um e também daqueles que Deus chamar a seu serviço na vida sacerdotal e religiosa.

Que em nossa família reine a confiança, a fidelidade, o respeito mútuo e que o amor nos uma cada vez mais. Permanecei em nossa família, Senhor. Abençoai nosso lar hoje e sempre. Amém!

Ministério para as Famílias – RCC-Br

domingo, 18 de março de 2012

Desobediência


Jr 34,17-20 – Semana passada falávamos aqui de escuta. Ouvir e obedecer a Deus. Colocar-se a disposição para ouvi-lo, obedece-lo, servi-lo. E a palavra hoje é como um complemento; só que no sentido inverso: a desobediência e suas conseqüências. Ver Jr 34,17-20.

            Nos tempos do AT era comum os pactos e acordos serem selados com a passagem dos contratantes entre as partes esquartejadas de animais sacrificados. Isto significava que aquele que descumprisse o acordo feito teria o mesmo fim que as vitimas do sacrifício.

            O v.17 diz (...). Quem faria passar por isso? Quem faria passar pela fome, pela peste, pela espada? Por certo não seria Deus. O inimigo é que age assim quando nos afastamos de Deus, quando desobedecemos e com isso nos distanciamos de Deus. Aí o inimigo se aproxima, pois estamos vulneráveis, longe da proteção divina. Sós, somos presas fáceis e satanás se aproveita dessa fragilidade para nos atacar. Ao longo da história bíblica o povo de Deus pecava, se penitenciava, era perdoado, voltava a pecar, se arrependia, era perdoado... e assim ia. Mas o pecado tinha conseqüências, provocava seqüelas.

            A desobediência de Adão e Eva, os primeiros homens – na realidade o primeiro grupo humano – nossos antepassados, quebrando o pacto com Deus, gerou todo pecado. Eles não resistiram a tentação, caíram e o pecado entrou no mundo e com o pecado a dor, o sofrimento, a morte. Ao pecarem perderam a plenitude da graça e ficaram reduzidos ao mínimo da condição humana.

            O ser humano possui corpo e alma. Um corpo animal, que está acima de todo animal; uma alma imortal, porém inferior aos anjos, pois estamos ligados à carne. Quando não se tem cuidado com o próprio corpo, peca-se contra si mesmo. Quando profanamos nosso corpo, morada do Espírito Santo, ofendemos gravemente a Deus, autor e dono de nossa vida.  Podemos até mesmo falar de duas dimensões do pecado. Vertical e horizontal. Vertical, quando afrontamos diretamente Deus e horizontal quando num mesmo nível, num mesmo patamar, ofendemos ao próximo e a nós mesmos, dessa forma ofendendo também a Deus.

             Deus nos gerou para a perfeição, nos criou a sua imagem e semelhança. Se não somos perfeitos, é porque fomos desfigurados pelo pecado e quebramos o espelho que refletia Deus em nós. Por causa da desobediência, a natureza humana perdeu a graça na própria origem, por isso o chamado pecado original.

            Felizmente temos um Deus misericordioso que se fez carne e deu-se a si mesmo em sacrifício expiatório. Jesus com sua morte de cruz, sua ressurreição, redimiu a humanidade de todos os pecados, de ontem, de hoje, de sempre. Jesus, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. E Jesus nos deixou sua Igreja e a Igreja nos dá os sacramentos. O batismo que nos lava do pecado original, onde rejeitamos a herança negativa e renascemos para uma vida nova. E se depois disso, viermos a vacilar, cair em tentação e pecar, Deus em sua infinita misericórdia nos oferece a confissão, onde poderemos ser perdoados e nos reconciliar com Ele.  
Carlos Nunes

sábado, 10 de março de 2012

Escuta e Prática da Palavra de Deus


Uma mãe instrui e educa o filho na expectativa de vê-lo crescer saudável, obediente e fiel. Um estudante se prepara na escola para fazer boas provas, passar de série, formar-se, ter uma profissão, tornar-se um cidadão respeitável.

            É isso que de certa forma Tiago nos apresenta em Tg 1,19-25. Ele nos pede que ouçamos e ponhamos em prática a Palavra de Deus. Que saibamos ouvir e obedecer. A Palavra tem que nos preencher, nos transformar. Aquele que ouve a Palavra de Deus e não retém no coração é como guardar água num balde furado. Ouvir a Deus, aceitar a Palavra de Deus; ouvir, aceitar, reter, guardar a Palavra de Deus. Guardar, não para acumular egoisticamente, mas para usufruir dela, para usá-la como fonte de salvação para si próprio e para os irmãos. (ver Rm 2,13).

            Não adianta multiplicar palavras, mesmo em oração, quando o coração está vazio. Nesta hora é melhor calar, é melhor silenciar para ouvir. Nenhum de nós é capaz de ouvir, entender, reconhecer uma voz em meio a um burburinho, um vozerio, principalmente quando nós mesmos falamos. Muitos reclamam que Deus não lhes fala, que carismas não são manifestados. Deus fala sim! Eles é que não ouvem. Falam, falam, falam, falam sem parar e não deixam espaço para Deus, não dão tempo para Deus. E mesmo quando Deus, às vezes atropela e fala, eles não percebem, não ouvem, tão mergulhados estão em seus próprios problemas.

            Tiago nos lembra que devemos usar a Palavra para não cair no erro. (ver Mt 7,24-27). Devemos também usar a Palavra para fugir do pecado, para viver os frutos do Espírito Santo: mansidão, amor, temperança, caridade, esperança, paz; e não viver sob a carne, cujos frutos são: malicia, devassidão, ódio, contendas, orgulho, violência, idolatria, etc.

            A leitura nos remete também a Primeira Epistola de São João (I Jo 3,17s). A fé sem obras é morta, nos diz Tiago mais adiante. A fé por si só não é caminho de salvação. Ela tem que ser acrescida de obras. Assim como a caridade sem fé, sem amor, não é caridade, é filantropia. De nada vale uma fé fervorosa se ela não é vivenciada, acompanhada de amor ao próximo, perdão as ofensas, caridade. Do mesmo modo é inútil a obra vazia, destituída de amor, sem a fé necessária que nos conduz ao caminho da verdade; tal obra se constitui em mero ativismo. A oração é como uma via de mão dupla; a cada pedido nosso, em contrapartida, Deus nos pede algo. O milagre de Caná só se realizou porque os homens encheram as talhas a pedido de Jesus. Lázaro retornou da morte após terem rolado a pedra do túmulo, a pedido de Jesus. O possível Ele quer que façamos, o impossível, o milagre Ele faz.
Carlos Nunes