sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

SER FELIZ


Diz a letra de uma bela canção popular: "A felicidade é como a pluma que o vento vai levando pelo ar. Voa tão leve, mas tem a vida breve; precisa que haja vento sem parar. A felicidade é como a gota de orvalho numa pétala de flor; brilha tranquila, depois de leve oscila e cai como uma lágrima de amor".
Belíssima poesia; no entanto não condiz com a felicidade cristã. Nossa felicidade não é efêmera como sugerem os versos da canção. Nossa felicidade não é baseada em fatos, pessoas ou coisas - se bem que isto possa concorrer para sermos felizes - não como fundamento, mas de maneira completiva.
A felicidade real não vem de fora, brota do coração pela presença viva de Jesus em nosso interior. Somos felizes quando temos Cristo Jesus no coração. Pois Jesus nos confere sua Paz, sua Alegria, seu Amor, sua Amizade. Quem tem Jesus tem tudo, portanto é feliz. A Palavra de Deus em Lc 12,31 e Mt 6,33 nos diz: "Buscai primeiro o Reino de Deus e sua Justiça e todas as demais coisas vos serão acrescentadas".
  Busquemos o Senhor; deixemo-nos conduzir pelo Divino Espírito Santo para que voando levemente, não por um vento qualquer de vã doutrina, mas pelo sopro da brisa suave do Espírito de Deus, sejamos realmente felizes. Felizes para sempre.



sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Eis o mistério da fé!

Essas palavras que o sacerdote pronuncia logo após a consagração do pão e do vinho, resumem toda a essência da Santa Missa. Ela é a celebração do mistério da fé, o ápice de toda devoção cristã.

Quem não entendeu o sentido profundo da Missa ainda não compreendeu o sentido profundo do cristianismo e da salvação que Jesus veio trazer aos homens.
A maioria dos batizados não gosta de participar da Missa?
Para uns ela é apenas uma longa cerimônia; para outros, um hábito sociológico, “um peso necessário”, uma obrigação de consciência ou apenas um exercício de piedade. Uns não gostam da Missa porque não gostam do padre que a celebra; outros, porque não gostam do sermão, ou porque a música não está boa, etc. E, assim, ficam apenas no acessório e se esquecem do Essencial.
A Missa é a celebração máxima da fé, porque nela o “mesmo” Sacrifício de Cristo no Calvário se faz presente, se “atualiza”, para que cada um de nós, pessoalmente, e em comunidade, possa em adoração, oferecer o Cristo ao Pai, pela salvação da humanidade.
A Liturgia reza que quando celebramos a Paixão do Senhor sobre o altar, “torna-se presente a nossa redenção”.
Deus, que na Sua misericórdia tinha muitas maneiras de restaurar a humanidade, escolheu esse meio de salvação para destruir a obra do demônio; não recorreu a Seu poder, mas à Sua justiça. Era justo que o demônio só perdesse seu domínio original sobre a humanidade sendo vencido no mesmo terreno onde venceu o homem. Cristo o venceu como homem, com a sua morte e ressurreição; destruindo a morte e a dominação do demônio sobre a humanidade.
É isto que celebramos na Missa; a Vítima Santa se torna presente sobre o altar, agora de maneira incruenta, para salvar, hoje, a humanidade.

Cristo mais uma vez oferece ao Pai o seu Sacrifício perfeito. E a redenção é aplicada a cada um de nós que comunga o Corpo imolado e ressuscitado de Jesus.
Carregando em Si todos os pecados dos homens, de todos os tempos e de todos os lugares, Jesus ofereceu ao Pai um Sacrifício perfeito.
O Pai aceitou essa oblação do Filho amado e, pela ressurreição, garantiu o Seu perdão à humanidade pecadora.
Por Jesus ressuscitado, a humanidade volta a Deus e caminha para a sua ressurreição.
Jesus ressuscitado é a garantia do triunfo dos que n’Ele crêem.
Por Ele todas as criaturas voltam redimidas para Deus, na Sua oblação que se faz perpétua através da Santa Missa.
No santo Sacrifício, o Calvário (o mesmo) se faz novamente presente. As ações de Jesus não se perdem no tempo, porque Ele é Deus, são teândricas; isto é, humanas e divinas.
O pão e o vinho oferecidos representam todo o universo e toda a humanidade que Cristo oferece ao Pai com todas as suas chagas, trabalhos e dores. Ali depositamos também a nossa vida e o nosso ser oferecendo-os também a Deus para fazer a Sua vontade.
Na consagração do pão e do vinho, Jesus – pelos lábios do sacerdote (qualquer que seja ele) – transforma a matéria no Seu Corpo e Sangue.
Pela celebração da Santa Missa, o mundo volta reconciliado para Deus e somos salvos. Ali, cada batizado, cada membro da Igreja, oferece a Deus Pai o Sacrifício perfeito de Seu Filho Jesus. Por isso, não há oferta mais agradável a Deus; não há oração mais completa em mais eficaz.
A Missa é o centro da fé, é o cerne do Cristianismo, é o coração da Igreja, é o centro do universo.

Nela o Senhor nos dá a comungar o Seu Corpo e Sangue. Ele vem morar em nós para ser nosso Alimento e Remédio.
Ele vem a nós para ser o alimento da caminhada, a força contra o pecado, e para transformar nossa vida de homem em vida de filho de Deus.
Pela Eucaristia, Cristo vem para em nós viver e amar os outros e para fazer de nós Seus discípulos e transformadores do mundo pela Sua presença e graça. Quando comungamos, nós nos tornamos, de fato, membros do Corpo de Cristo, unidos a todos os irmãos do céu e da terra. E a redenção do mundo! Nunca compreenderemos totalmente a magnitude da Santa Missa…
Ela é a fonte de onde nos vem a salvação. Por ela, a cada dia, Cristo salva a humanidade.
Quando entendermos bem o significado da missa, a consequência imediata será o desejo de participar dela todos os dias…     

Prof. Felipe Aquino

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

O Mundo em que Vivemos


Estará o mundo perdido? Pelo que vemos nas manchetes dos jornais e TV parece que sim. Desastres naturais e tragédias humanas povoam o noticiário: furacões, terremotos, inundações, acidentes de transito, atentados terroristas, seqüestros, jovens matando e morrendo por quase nada... e assim noticias idênticas se repetem num circulo vicioso.

Por outro lado os atos de generosidade e amor, fraternidade e ternura, solidariedade e compaixão têm pouca, quase nenhuma divulgação. Atitudes preservacionistas com relação à natureza ainda são noticia, porém o que se faz para preservar a vida em todos os sentidos, valorizar o ser humano e não o “ter humano”, não repercutem na mídia.

Atividade vulcânica, furacões, tremores de terra, tempestades e diversas manifestações climáticas, são fenômenos naturais aos quais o homem com toda ciência e tecnologia a seu dispor não consegue controlar. No entanto, o comportamento humano, a ética, a moral, podem e devem ser controladas.

Tal controle não se refere ao domínio sobre o outro, a privação do livre arbítrio, da auto determinação e liberdade individual. Refere-se, outrossim, à educação, ao enquadramento nas leis, respeitando-se obviamente os direitos do cidadão.  Educação não somente nas escolas, mas principalmente nos lares. A família deve ser a grande formadora de cidadãos livres, honestos e solidários. Uma criança amada e amparada, educada segundo os princípios morais universais – aqueles formulados desde o principio do mundo, vigentes hoje e até o final dos tempos – será certamente um adulto cumpridor das leis, ético, fraterno, respeitador e amoroso.    

Não, o mundo não esta perdido. Está apenas doente. Apesar de todos os males da humanidade, da degradação dos costumes, do aviltamento dos valores, da corrupção moral, ainda subsiste gente boa no mundo; muita gente, graças a Deus! Gente que valoriza as instituições, família, igreja. Gente que vê no próximo um irmão e não uma ameaça, um rival. Gente que ama com o mesmo amor com que é amado: o ágape, o filos, o hesed. (respectivamente: amor de Deus Pai; amor filial, fraterno; amor doação). O mundo não está perdido. Está doente, mas tem cura.




sábado, 30 de dezembro de 2017

Viver o Querigma


Conhecemos o amor de Deus. O incomparável e infinito amor que só pode vir do coração inigualável do Pai Criador de tudo e de todos. Assim fomos criados, nessa fonte inesgotável de amor, pois que Deus é o próprio amor. Porém há um porém – assim mesmo com pleonasmo e tudo – muitos de nós não conhecemos ou não queremos aceitar esse amor e assim nos desfiguramos. Nos desfiguramos porque rejeitamos, desse modo, nossa condição de semelhantes e imagem do Criador.
A causa maior dessa distorção é oriunda do pecado. Pecado, que por definição é a transgressão às regras e preceitos; regras e preceitos estabelecidas por Deus, da mesma forma que os pais estabelecem regras e limites para os filhos. Pois bem, desobedecemos, transgredimos, erramos o alvo às vezes até mirando no que julgamos certo, enfim, pecamos.  E com o pecado nos afastamos da graça, repudiamos na verdade a graça. Deus faz chover copiosamente sua graça sobre todos, porém o pecado é como um guarda chuvas aberto. Se nos arrependemos, é como se fechássemos a umbrela e a graça divina nos envolve e inunda. A Bíblia diz que onde o pecado é abundante é superabundante a graça. 
Basta o arrependimento e confissão dos pecados para sermos perdoados? De certa forma sim. Como de certa forma? Porque o arrependimento e confissão são condições, mas isso só é possível porque alguém carregou por nós as nossas iniquidades, traições, nossos erros, faltas, nossa presunção, orgulho, ingratidão, nossas mazelas. Sobre ele pesou o castigo que nos salva; espoliou principados e potestades, venceu a morte, triunfou sobre todos pela cruz: “Mortos pelos vossos pecados e pela incircuncisão da vossa carne, chamou-vos novamente à vida em companhia com ele. É ele que nos perdoou todos os pecados, cancelando o documento escrito contra nós, cujas prescrições nos condenavam. Aboliu-o definitivamente ao encrava-lo na cruz” (Colossenses 2,13-14).
Temos convicção através da fé, esse dom que nos faz crer mesmo sem ter visto, que Jesus na cruz salvou a todos. A fé em Jesus Salvador é primordial, mas a fé em si só não basta, é preciso vivê-la, experimencia-la. Viver a fé é fazer a vontade do Pai por Jesus. Amar a Deus acima de tudo e ao próximo como a si mesmo; doar-se, entregar-se sem reservas ao Senhor; perdoar e ter a humildade de pedir perdão; despojar-se, aceitar a cruz quando esta se fizer presente; por fim, render preito de gratidão e reconhecimento, louvando a Deus em toda e qualquer circunstância. Assim mudamos o rumo de nossa vida iniciando o processo de conversão, que deve ser renovado dia a dia.
Tudo isso, a fé carismática, a conversão diária, a submissão ao senhorio de Jesus, só é possível pela ação do Espírito Santo. Quando nos abrimos a ação do Espírito Santo; quando nos deixamos moldar, ser conduzidos, ser iluminados pelo Espírito, tudo muda; somos renovados, nos tornamos novas criaturas e como novas criaturas aceitamos o senhorio de Jesus em nossa vida e com fé e atitude nos convertemos. 
Convertidos, mais apropriadamente, a caminho da conversão total que é a santidade, é necessária a inserção numa comunidade de fé. A pertença a um movimento eclesial, uma pastoral, um serviço na paróquia, enfim, desinstalar-se do comodismo e servir a Deus na Igreja do Senhor, anunciando-o, fazendo seu santo nome conhecido e amado. Diz o Senhor a seus amados: A messe é grande e os operários são poucos.


sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Natal




O Natal se aproxima. O comércio já prepara as ofertas de natal, as lojas se enfeitam, a TV divulga anúncios visando as vendas natalinas. Tudo respira natal; o consumismo é intensamente incentivado. Já se ouvem as musiquinhas de natal; “gingou béu, gingou béu...” e o Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo onde está que não se fala? Cadê o nosso Natal?
Não há muito tempo, ainda se armavam presépios nas praças, as lojas eram ornamentadas com motivos verdadeiramente natalinos. Mesmo no meio comercial havia Natal. Hoje em dia os ornamentos nos mostram renas, carruagens, duendes, “papais noéis” estilizados. Mostram um natal diferente, também estilizado, ou seja, deturpado.
O Natal de Jesus foi substituído por um consumismo desenfreado. A ceia em família foi substituída por festas onde a oração e a moderação no comer e beber deram lugar a comilança e bebedeira sem limites.
Infelizmente constatamos que muitos que se dizem cristãos católicos aderiram ao natal mundano. Trocam Jesus por Papai Noel, o cálice de vinho por latas e latas de cerveja, a Missa de Natal pela confraternização entre amigos e o que é pior, muitos optam pelas baladas em plena noite de Natal.
Como, porém, em plantas espinhentas nascem belas rosas, ainda há quem em meio a isso tudo ainda comemore o legitimo Natal, com Missa e ceia em família, ainda que trocando presentes e também confraternizando com os amigos (que a bem da verdade não constituem erro).
Talvez tenha chamado atenção a diferença em alguns parágrafos das grafias natal e Natal. Não, não foi erro de digitação.     




sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Os sacramentos são fontes de bênçãos para nossa vida

Façamos uma reflexão sobre a importância dos sacramentos na nossa vida

Toda bênção é louvor de Deus e pedido para obtermos seus dons. Em Cristo, os cristãos são abençoados por Deus, o Pai “de toda a sorte de bênçãos espirituais” (Ef 1,3).
Esse trecho da Carta de São Paulo nos anima a observamos a importância dos sacramentais na nossa vida. Eles têm grande valor de santificação e consagração, pois Deus derrama sobre o homem sua bênção. O Senhor quer nos abençoar por intermédio da Igreja, quer abençoar nossa casa, nossos objetos, pois onde existe a bênção de Deus o diabo não pode tocar.

Compreenda os sacramentos
Primeiramente, vamos entender o significado dos sacramentais:
“A santa mãe Igreja instituiu os sacramentais, que são sinais sagrados pelos quais, à imitação dos sacramentos, são significados efeitos, principalmente espirituais, obtidos pela impetração da Igreja. Pelos sacramentais, os homens se dispõem a receber o efeito principal dos sacramentos e são santificadas as diversas circunstâncias da vida” (Catecismo da Igreja Católica – CIC § 1667).
Os sacramentais não conferem a graça em si, à maneira dos sacramentos, mas são caminhos que conduzem a ela, ajudando a santificar as diferentes circunstâncias da vida. Eles despertam nos cristãos sentimentos de amor e fé.
Resgatando o sentido da bênção
“Os sacramentais não conferem a graça do Espírito Santo à maneira dos sacramentos, mas, pela oração da Igreja, preparam para receber a graça e dispõem à cooperação com ela. “Para os fiéis bem dispostos, quase todo acontecimento é santificado pela graça divina que flui do mistério pascal da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo, do qual todos os sacramentos e sacramentais adquirem sua eficácia. E quase não há uso honesto de coisas materiais que não possa ser dirigido à finalidade de santificar o homem e louvar a Deus” (CIC §1670).

Nós precisamos estar revestidos, a todo momento, da graça santificadora que nos vem por meio dos sacramentais. Precisamos resgatar, em nossa vida, o verdadeiro sentido da bênção, pois com ela somos revestidos por Deus contra os ataques de satanás. O diabo não quer que sejamos portadores dela [bênção] nem que a recebamos.
Todos nós podemos ser portadores da bênção do Senhor, nossa vida precisa ser transformada em bênçãos, as quais devem ser transmitidas para as pessoas que estão ao nosso derredor. “(…) todo batizado é chamado a ser uma bênção e abençoar. Eis por que os leigos podem presidir certas bênçãos; quanto mais uma bênção se referir à vida eclesial e sacramental, tanto mais sua presidência deve ser reservada ao ministério ordenado (bispo, presbíteros – padres – ou diáconos)” (CIC § 1669).
O alcance das bênçãos
Contudo, precisamos diferenciar no que se refere a bênção conferida pela Igreja, que tem efeito duradouro e o efeito sobre objetos ou lugares. “Certas bênçãos têm um alcance duradouro: têm por efeito consagrar pessoas a Deus e reservar para o uso litúrgico objetos e lugares. Entre as destinadas às pessoas, não as confundir com a ordenação sacramental – figuram a bênção do abade ou da abadessa de um mosteiro, a consagração das virgens e das viúvas, o rito da profissão religiosa e as bênçãos para certos ministérios da Igreja (leitores, acólitos, catequistas etc.). Como exemplos daquelas que se referem a objetos, podemos citar a dedicação ou a bênção de uma igreja ou altar, a bênção dos santos óleos, de vasos e vestes sacras, de sinos etc” (CIC § 1672). Os objetos são, por exemplo, artigos de devoção consagrados pela Igreja: velas, palmas, crucifixos, medalhas, terços, escapulários, imagens do Senhor, da Virgem e dos santos.
Também o exorcismo é uma forma de sacramental conferido por uma autoridade constituída pela Igreja usado em caso de possessão diabólica. “Quando a Igreja exige publicamente e com autoridade, em nome de Jesus Cristo, que uma pessoa ou objeto seja protegido contra a influência do maligno e subtraído a seu domínio, fala-se de exorcismo. Jesus o praticou, é dele que a Igreja recebeu o poder e o encargo de exorcizar. Sob uma forma simples, o exorcismo é praticado durante a celebração do batismo. O exorcismo solene, chamado ‘grande exorcismo’, só pode ser praticado por um sacerdote, com a permissão do bispo. Nele é necessário proceder com prudência, observando estritamente as regras estabelecidas pela Igreja. O exorcismo visa expulsar os demônios ou livrar da influência demoníaca, e isso pela autoridade espiritual que Jesus confiou à Sua Igreja. Bem diferente é o caso de doenças, sobretudo psíquicas, cujo tratamento depende da ciência médica. É importante, pois, verificar, antes de celebrar o exorcismo, se se trata de uma presença do maligno ou de uma doença” (CIC § 1673).
Os sacramentais são expressos também por uma grande devoção popular, um sentido religioso da piedade cristã que acompanha a vida sacramental da Igreja, como a veneração das relíquias, as visitas aos santuários, as peregrinações, as procissões, a «via-sacra», o Rosário. As formas autênticas de piedade popular são favorecidas e iluminadas pela luz da fé da Igreja. “Sim, Senhor, a salvação vem de vós. Desça a vossa bênção sobre vosso povo” (Sl 3,9).

   Fonte: formacao.cancaonova.com

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Lc 17,11-19 – Ir ao encontro do Senhor


Encontramos aí um ato de gratidão. Dez leprosos foram a jesus precisando de cura. Jesus na sua imensa misericórdia os atendeu; após Jesus instrui-los, conforme se afastavam percebiam que estavam sendo curados. Quantos voltaram para agradecer? Somente um e era samaritano...
Vemos então que os dez foram ao encontro de jesus por interesse e só um, movido por amor e gratidão, voltou a Ele. Esse permaneceu com o Senhor; os outros alcançaram a graça e voltaram as costas para Jesus.
 Este episódio bíblico retrata exatamente nosso comportamento nos dias atuais; verifica-se isso notadamente em nossos grupos de oração. Cotidianamente muitos andam vazios, alguns praticamente com somente o núcleo, raríssimos frequentadores na assembleia; alguns – poucos na verdade – em virtude da falta de zelo e unção dos componentes, mas isso é exceção, a maioria é formado por servos ungidíssimos e mesmo assim os grupos permanecem vazios. Vazios até se anunciar a presença de algum pregador famoso   que atue no ministério de oração por cura. Nesse dia o G.O. enche, a igreja por maior que seja torna-se pequena para conter a assembleia. O que podemos concluir daí? O povo de Deus está doente (a maioria de nós realmente precisa de cura em diversos níveis), ou muita gente só quer ver e/ou conhecer o padre ou o leigo famoso e até mesmo ‘idolatrado’.  Depois tudo volta ao normal, grupo de oração com poucos frequentadores, reunido num cantinho da igreja ou numa sala paroquial. Na multidão da reunião anterior quantos foram curados e quantos voltaram, ao menos para agradecer? Poucos, pouquíssimos, talvez nenhum tenha retornado para agradecer como o samaritano.
Sabemos que Deus se deixa encontrar; em verdade Ele vem a nosso encontro e nós, quase sempre, nos esquivamos Dele. Muitos O procuram por interesse, em busca de uma graça, cura, emprego, entre tantas necessidades e carências. Até conseguem e depois? Tchau!  Infelizmente essa é a realidade, somos fiéis de meia tigela, cristãos apáticos, católicos de mentirinha. Quantos respeitamos as orientações da Igreja, obedecemos aos preceitos bíblicos, vivenciamos a doutrina católica? Poucos, somente aqueles que seguem fielmente a Tradição, a Palavra e o Magistério da Igreja, ou seja, os católicos praticantes (os que obedecem) e os atuantes (os que difundem).
Portanto, deixemo-nos encontrar por Jesus – que está sempre perto de nós – e o sigamos. Não busquemos somente a graça, os prodígios e milagres, mas o autor de tudo isso. Sigamos Jesus em qualquer circunstância, diante da alegria ou da tristeza, do choro ou do regozijo, Ele é nosso amparo, nossa força, nossa esperança. Tomemos a decisão de busca-lo, encontra-lo e segui-lo, onde Ele for, até a cruz se for preciso.  





                    

sábado, 2 de dezembro de 2017

Qual é a nossa missão?


Eu, você e todos os cristãos temos um chamado especial de Deus
Você já parou para pensar para que servem os balões? Eles com suas diferentes cores e tamanhos, ornamentam festas, alegram o ambiente, divertem as crianças, chamam atenção daqueles que olham, enfeitam o mundo. Muito bem! No entanto, eles só conseguem fazer tudo isso se estiverem cheios. Para que servem balões vazios? Não servem para nada, não têm vida, não tem beleza, não alegram, vão para o lixo.
E os cristãos? Para que servem os cristãos?
Deus, para salvar a cada um de nós, enviou seu Filho e Seu Filho enviou a Igreja, isto é, os Apóstolos e seus sucessores (cf. Mt 10, 16ss; Jo 20,21-23), com a missão de espalhar a Boa Nova do Reino de Deus pelo mundo. A missão dos apóstolos, e de todos nós que aderimos a Cristo, é continuar sua missão nesta terra. Que missão! Difícil, árdua, mas muito bela; levar cada pessoa viver no Reino de Deus; reino de paz, de amor, de verdade, de justiça e de liberdade. Levar as pessoas a um dia viver eternamente com Deus no Céu. São Paulo disse que “olhos humanos jamais viram, ouvidos humanos jamais ouviram, e coração humano jamais sentiu o que Deus tem preparado para aqueles que o amam”. (1 Cor 2,9; Is 64,4).
A Didaquê, um documento cristão do primeiro século, dizia que: “Aquilo que a nossa alma é para o corpo, os cristãos são para o mundo”. Sem a alma o corpo não tem vida, sem os cristãos o mundo não tem vida. Por isso Jesus disse: “Vós sois o sal da terra” (Mt 5,13). “Vós sois a luz do mundo” (Mt 5,14). A luz do cristão, que é a Luz de Cristo, ilumina este mundo de trevas do pecado: ódio, ganância, brigas, mortes, roubos, adultérios, vanglórias, exibicionismos, orgias, comilanças, bebedeiras…
É o sal que dá sabor ao alimento e que o conserva. Só Cristo conserva a vida com sabor e com integridade. E Ele quer que os cristãos sejam os portadores e irradiadores dessa luz que ilumina as trevas e esse sal que dá sabor e vida.
Mas, para continuar a missão de Cristo, é necessário sermos semelhantes a Ele. Ele deixou claro que sem Ele não podemos fazer nada (cf. João 15,5). Por isso, o cristão só poderá ser o sal da terra e a luz do mundo se estiver repleto de Cristo. São Paulo era um gigante evangelizador porque tinha consciência de que não era ele quem vivia, mas que “Cristo vivia nele”, e lhe dava força e coragem de enfrentar muitas viagens, perseguições, açoites, prisões, etc..
E quem nos faz semelhantes a Cristo, repletos de Cristo, portadores de Cristo, é o Espírito Santo.
O Espírito de Jesus habita em nós para fazer-nos imagens de Jesus; esta é a vontade do Pai, que cada um de nós seja uma réplica de seu amado Jesus. E quem faz isso é o Espírito Santo. Ele nos leva a atingir o estado de homem perfeito, a estatura e maturidade de Cristo” (Ef 4,13). Os cristãos precisam estar cheios do Espírito Santo. O que podem fazer cristãos vazios? Cristãos vazios são como balões vazios! Não podem fazer nada.

Continuar a missão de Cristo aqui na terra é algo muito sério. Embora, muitos não sejam conscientes disso, todos são chamados. O parágrafo 900 do Catecismo da Igreja Católica deixa bem claro que:
“Uma vez que, como todos os fiéis, os leigos são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, eles têm a obrigação e gozam do direito, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente por meio deles que os homens podem ouvir o evangelho e conhecer a Cristo.”
Os leigos estão na linha mais avançada da vida da Igreja, no mundo secular e precisam ter uma consciência clara, não somente de pertencerem à Igreja, mas de “serem” Igreja.
O leigo tem como vocação própria, estabelecer o Reino de Deus exercendo funções no mundo, no trabalho, na cultura, na política, etc., ordenando-as segundo o Plano e a vontade de Deus. Cristo os chama a ser “sal da terra e luz do mundo”. O leigo chega aonde o sacerdote não chega. Ele deve levar a luz de Cristo aos ambientes de trevas, de pecado, de injustiça, de violência, etc.. Assim, no mundo do trabalho, levando tudo a Deus, o leigo contribui para o louvor do Criador, se santifica e santifica o trabalho. Ele constrói o mundo pelo labor, e assim coloca na obra de Deus a sua assinatura. Torna-se co-criador com Deus.
O Concílio Vaticano II resgatou a atividade do leigo na Igreja: “Os leigos que forem capazes e que se formarem para isto podem também dar sua colaboração na formação catequética, no ensino das ciências sagradas e atuar nos meios de comunicação social” (Cat. n.906).
O Código de Direito Canônico dá ao leigo o direito e o dever de dar a sua opinião aos pastores:
“De acordo com a ciência, a competência e o prestígio de que gozam, têm o direito e, às vezes, até o dever de manifestar aos pastores sagrados a própria opinião sobre o que afeta o bem da Igreja e, ressalvando a integridade da fé e dos costumes e a reverência para com os pastores, e levando em conta a utilidade comum e a dignidade das pessoas, deem a conhecer essa sua opinião também aos outros fiéis. (Cat. 907; Cânon 212,3).
Para ser firme no cumprimento de sua missão de batizado e missionário, o leigo precisa ter uma vida espiritual sadia. O Papa João Paulo II disse um dia que: “A eficácia do trabalho apostólico do fiel leigo está intimamente associada à sua base espiritual, à sua vida de oração pessoal e comunitária, à frequência na recepção dos Sacramentos, sobretudo a Eucaristia e a Penitência e à sua reta formação doutrinária.”
Sem isso, não podemos ser repletos do Espírito Santo e de agir pelo poder de Cristo em nós. O leigo que não reza, não se Confessa, não Comunga, não lê e não medita a Palavra de Deus, não tem perseverança na missão, e como acontece com muitos sacerdotes também, acaba sendo afastado dela.
Mais do que nunca a Igreja precisa hoje dos leigos no campo de batalha do mundo; pois hoje ela é magoada, ofendida, perseguida e tida por muitos como a culpada de todos os males. Uma escala de valores pagã tenta insistentemente substituir a civilização cristã por uma cultura de morte (aborto, eutanásia, destruição de embriões, suicídio assistido…); e Deus vai sendo expulso da sociedade como se fosse um mal, e a religião católica vai sendo atacada por um laicismo agressivo anticristão. Nossa missão hoje, mais do que nunca, é pelo poder do Espírito Santo, sermos testemunhas de Jesus Cristo; e mostrar o mundo que sem Ele não há salvação eterna e nem felicidade terrena.
                                                    Prof. Felipe Aquino


domingo, 26 de novembro de 2017

O Rosário na História


O Rosário na história: desde o começo até à consolidação da sua estrutura atual
É quase impossível voltar a percorrer com precisão os passos que levaram à atual estrutura do Rosário. Mas podemos, ao contrário, seguir o nascimento e o desenvolvimento dos motivos básicos, que se relacionaram entre si dando origem a uma síntese de sentido e a um método de oração.
Antes de mais, a oração contínua muitas vezes condensou-se numa fórmula breve. A este respeito é conhecido a sugestão de repetir: “Vinde depressa, Senhor, ter comigo, vós sois a minha ajuda” (Sl 69, 2; Cassiano, Conferência 10, 10), ou a exortação: “Respirai sempre Cristo” (Santo Atanásio, Vida de Antônio, 91, 3), da qual aparecerá o exicasmo. Mas a repetição levou à oração numérica, porque repetição e tempos de espera indeterminados geram ansiedade, enquanto um número apresenta um limite e um termo.
A oração numérica deu origem ao sentido do número: quantas fórmulas e em referência a quê? A resposta foi: em referência ao Saltério. Relacionada com esta intuição surgiu outra, a substituição, no sentido de que um determinado número de fórmulas breves substituiu os Salmos. A práxis fortaleceu-se sobretudo quando um número crescente de pessoas já não era capaz de ter acesso ao Saltério. Desta forma, verificou-se a substituição do Saltério com 150 fórmulas, ou a substituição das horas canônicas através de um número variante de Pater e Ave para cada uma. Foi dito num latim macarrônico: “Qui non potest psallere debet patere’ .’Quem não pode recitar os Salmos deve recitar alguns Pater” (Cf. Meersseman, Ordo fraternitatis III, págs. 1444-1445).
Com a tendência numérica, afirmou-se na oração a atenção aos “mistérios” de Cristo. Já presente nos Padres, a devoção à humanidade de Cristo para alguns derivaria da adoração da Cruz na Sexta-Feira Santa, cada vez mais carregada de ressonâncias afetivas e marianas. Desta tríplice tendência – mistérios de Cristo, dimensão mariana, ressonância afetivas – com vista ao Rosário interessam duas realizações: os Saltérios marianos e as meditações sobre a vida de Cristo.
Os Saltérios marianos começaram no século XII em algumas comunidades cistercienses com o uso de acrescentar aos Salmos uma antífona mariana. Derivou daqui a tendência para editar unicamente as antífonas e compor diretamente Saltérios marianos, como aquele que é atribuído a Santo Anselmo de Aosta (+ 1213), com 150 antífonas rítmicas derivadas do versículo de um salmo.
No que se refere às meditações, uma certa antecipação da estrutura do Rosário encontra-se nas Meditações sobre as alegrias da Santa Virgem do cisterciense Estêvão de Sallay (falecido em 1252), que propõe um exercício de oração de 15 “alegrias” marianas divididas em três secções. Se o número 15 e as alegrias relacionam o que se escreveu com o Rosário, a complexidade e o comprimento marcam a sua diferença. Foram mais decisivas em relação ao espírito do Rosário as Meditaciones vite Christi, do início de 1300, atribuídas a São Boaventura e agora a João de Caulibus e disponíveis numa edição crítica no volume 153 do CCCM. As meditações sobre a vida pública de Jesus começam com o batismo e concluem-se com a última ceia (cap. 16-73) e é prestada atenção à presença de Maria: a Ela Jesus pede a bênção antes do ministério público recebendo a sua resposta: “Vai, com a bênção do Pai e com a minha” (pág. 173, 9-10); a Ela, na ceia em Betânia (cap. 72), mesmo se a Escritura não fala disto (pág. 240, 2-3), Cristo revela a iminência da paixão e aparece-Lhe Ressuscitado (cap. 82) saudando-a: “Salve sancta parens” (pág. 301, 28-29). Mais determinante para o Rosário foi a Vita Jesu Christi e quattuor Evangelis et scriptoribus ortodoxis concinnatta ou Vida de Cristo, de Ludolfo de Saxónia (+ 1377), publicada em Estrasburgo em 1474 e que, em pouco tempo, chegou a 78 edições latinas. O autor, dominicano, e depois cartuxo, com um esquema vasto (da geração do Verbo à parúsia), com citações de Padres e de autores medievais, com a conclusão orante de cada capítulo, contribui para enraizar estavelmente a referência aos mistérios de Cristo na oração pessoal.

Mudaram também as fórmulas. No início, a mais usada foi o Pai Nosso, tanto que Paternoster designava o instrumento para contar as orações. Depois, devido a vários fatores – incluindo a tradução do Akathistos em latim por volta do século IX – começou a prevalecer o uso do Ave, como testemunham São Pedro Damião (+ 1072) e um sínodo parisiense realizado por volta de 1200, que acrescentou ao Pater e ao Credo o Ave como oração quotidiana a ser ensinada ao povo (PL 145, 564; Mansi 22, 681). Formou-se assim um “Rosário” de 50 Ave e um “Saltério” de 150 Ave, que já no século XIII era recitado por pessoas devotas individualmente ou em grupos, como a Santimónia de Gand.
No que diz respeito ao instrumento, no antigo Paladino fala-se de um certo Paulo que recitava 300 formas por dia, recolhendo “igual número de pequenas pedras que levava no peito lançando fora uma por cada oração feita” (História lausíaca 20, 1). Depois era usada uma corda com nós, que alguns dizem que se tenha afirmado, através da Espanha, por influência da corda enodada – a subha ou tashbi – que no islão servia e serve para contar os 99 Nomes divinos e para apoiar o dirk, isto é, a recordação do Nome: não é possível demonstrar esta derivação mas é bonito pensar que seja verdadeira. Entre os cristãos do Oriente afirmou-se um análogo terço de corda ou de lã denominado kombológion ou Komboskoínon (kómbos em grego significa nó).
Por fim, a influência do teatro como animação litúrgica e depois como representação dos mistérios fora da liturgia fundou o aspecto da criação de imagens da meditação e a referência visual do Rosário: o quadro ou as imagens de um livro.
A convergência de todos estes fatores exigia um método de oração que os simplificasse e os harmonizasse. Isto verificou-se com três intervenções decisivas mesmo se não estavam coordenadas.
A primeira foi a divisão do Saltério das 150 Ave em 15 dezenas, sendo cada uma delas precedida de um Pater (na época o Ave não incluía a atual Segunda parte nem assuntos a serem meditados). A operação é atribuída ao cartuxo Enrico Egher de Kalcar (+ 1408), que outros, e não ele, fazem remontar a uma sugestão de Nossa Senhora. A divisão era feliz porque conservava o número 150 – o Saltério – e ritmava o seu comprimento adotando o esquema decimal, o mais óbvio porque se baseava nos dedos das mãos.
A segunda intervenção remonta ao cartuxo Domingos da Prússia (+ 1460), que, partindo do Rosário das 50 Ave, uniu uma cláusula ao nome de Jesus variante para cada uma, compondo um rosário ininterrupto de 50 Ave e 50 cláusulas e inspirando-se num opúsculo que resumia a Vida de Cristo de Ludolfo. Este rosário era o espelho e o equilíbrio perfeito do seu tempo e talvez um equilíbrio absoluto. De fato, não substituía nem a liturgia nem a Escritura; unia a inspiração da oração numérica com a meditação dos mistérios de Cristo; concedia espaço ao que, comovendo, podia suscitar devoção (14 cláusulas à infância, 23 à paixão, apenas 7 à glória); permanecia aberto a toda a vida de Cristo com 6 cláusulas sobre a vida pública: Jesus, “que João batizou no Jordão, indicando-o como o cordeiro de Deus / que jejuou durante quarenta dias no deserto e que satanás tentou três vezes / que, tendo reunido os discípulos, anunciou ao mundo o reino dos céus / que restituiu a vista aos cegos, curou os leprosos, os paralíticos e libertou todos os que estavam oprimidos pelo diabo / cujos pés Maria Madalena lavou com as suas lágrimas, enxugou com os cabelos, beijou e cobriu de perfume / que ressuscitou Lázaro morto havia já três dias e também outros mortos”.
Mas a intervenção decisiva foi feita pelo dominicano bretão Alano de la Toche (+ 1475), que estabilizou o Rosário assumindo-o também como instrumento pastoral. Com esta finalidade, instituiu a primeira confraria entre 1464 e 1468, aprovada pela ordem dominicana a 16/5/1470: tratava-se de antigas confrarias que Alano revitalizou dando-lhes a oração do Saltério mariano, revigorando-as com a pregação e um novo impulso. Tudo isto tornou usual, naquele tempo, uma oração que por si só, talvez tivesse desaparecido com os seus inspiradores. Alano conhecia e recomendava muitos rosários ou saltérios, com o Pater ou com Ave, só cristológicos ou só marianos, com ou sem cláusulas. Mas preferia as 15 dezenas em virtude dos 15 Pater que, segundo uma crença, num anno honravam as feridas da paixão do Senhor, que teriam sido 5475, isto é, 365 (os dias do ano) vezes 15. Alano insistia sobre o Saltério: todos os dias os confrades deviam rezar com 150 fórmulas e evitar o mais possível a palavra rosário que, na época, tinha uma marca mundana. Entre as numerosas propostas de Alano encontra-se também o nosso atual Rosário, como um “Rezar diretamente dirigindo-se a Cristo. E assim, as primeiras cinquenta sejam rezadas em honra de Cristo encarnado. A segunda de Cristo que sofre a paixão. A terceira em honra de Cristo que ressuscita, que se eleva ao céu, que manda o Paráclito, que se senta à direita do Pai, que virá para julgar” (Apologia 14, 20). Por fim, Alano deu ao Saltério da Virgem um fundamento espiritual, reencontrando-o na oração dos monges, dos Padres, dos Apóstolos e da própria Virgem Maria, que o entregou de maneira particular a São Domingos. Este último é um clamoroso falso historiador, mas devemos reconhecer a habilidade de Alano, que impôs esta interpretação a toda a iconografia, e não só à iconografia.
Como passou o Rosário da fluidez ainda presente em Alano à estabilidade que conhecemos? Tratou-se de um processo ao mesmo tempo espontâneo e em estímulos convergentes nos quais agiram: certas preferências de Alano sobre os três grupos e sobre as 15 dezenas; o impulso unificador derivante da confraria; o uso do quadro e a exigência de um critério único de dispor os mistérios; a estabilização que sucede ao começo variado de qualquer experiência; a referência ao modo de lucrar as indulgências e, posteriormente, o clima da contra-reforma que tendia para a exatidão na oração.
Os mistérios são quase os atuais na xilografia de Francisco Domenech de 1488 e na área espanhola. Em Veneza, em 1521, Alberto de Castello publicava o Rosário da gloriosíssima Virgem Maria, mantendo 150 cláusulas, mas unindo a meditação com o Pater e denominando-a “mistério” e, por conseguinte, favorecendo a ordem atual. Deve notar-se que a publicação ainda considera o rosário uma oração visual, com 165 imagens, uma para cada Pater e Ave.
A intervenção de São Pio V foi principalmente a Bula Consueverunt (17/9/1569), na qual se lê que “o Rosário ou Saltério da Bem-Aventurada Virgem Maria” é uma “forma de oração” através da qual Maria “é venerada com a Saudação Angélica repetida 150 vezes segundo o número dos Salmos de David, intercalando cada dez Ave com a oração do Senhor, com meditações que ilustram toda a vida do mesmo Senhor Jesus Cristo”. Para uma leitura correta é preciso notar que não apresenta o elenco dos mistérios; não são mencionadas as cláusulas, mas sim o Saltério; a meditação parece estar ligada ao Pater (segundo a fórmula precedente de Alberto de Castello) e estende-se a “toda” a vida de Cristo.

De Alano em diante, incluindo o Magistério, deve-se observar que por meditação se entende sempre mais a oração mental – da qual o esquema de repetir as palavras meditando – e menos a repetição ligada aos lábios, segundo a sentença: “os iustii meditabitur sapientiam / os lábios do justo meditam a sabedoria” (Sl 36, 30). Além disso, os documentos papais até Leão XIII, excluindo-o, descrevem o Rosário principalmente em função de determinar as suas indulgências. Por fim, a referência ao Saltério foi-se enfraquecendo cada vez mais, e após a morte de Alano a confraria de Colônia passava a obrigação das 150 fórmulas de diária para semanal e autorizava a divisão em cinquenta.
A estabilização acima descrita acompanhará o Rosário até aos nossos dias, com a persistência das cláusulas na área anglossaxônica. O resto pertence a preciosismos destinados a não terem continuidade – como o Rosário místico dos dons excelentes e das graças que Deus deu à Bem-Aventurada Maria Madalena, do cartuxo Lanspergio (+ 1539) – ou a variáveis que não afetam a estrutura do Rosário, ou à história do seu uso pastoral. Paulo VI na MC 51 previa “exercícios de piedade que vão buscar a sua força ao Rosário”, mas que não alteravam a sua estrutura. A recente carta Apostólica RVM propõe novamente, refundindo-os de novo, alguns elementos de método (as cláusulas, mas não só) e de conteúdo (os mistérios da luz). Também isto já é história, mas nós ainda o vemos como atualidade.
Riccardo Barile
Professor na Faculdade Teológica
Dominicana de Bolonha





sábado, 25 de novembro de 2017

O Que Deus Espera de Nós




Quando amamos nos entregamos ao objeto de nosso amor, seja coisa ou pessoa. Entrega essa no sentido restrito de comprometimento, se bem que as vezes, a entrega é total no sentido pleno da palavra. Também quando amamos – pessoas naturalmente – esperamos que a recíproca seja verdadeira, ou seja, esperamos correspondência unívoca a esse amor. Amamos e ansiamos sermos amados; somos fiéis e exigimos fidelidade; comprometemo-nos (entregamo-nos) e esperamos compromisso. Em tudo esperamos, ansiamos, desejamos, exigimos uma contrapartida. Amamos e esperamos ser amados, fazemos o bem e esperamos o bem em nossa vida, somos caridosos e esperamos caridade, oramos a Deus e esperamos uma resposta ou uma atitude.

Nosso amor é condicional ou impõe condições.   Nosso amor é egoísta, egocêntrico, egonimo. Nosso amor é carnal. Longe de tratar-se de antítese corpo/alma, vivamos no espírito e não segundo as paixões da carne: ‘' Digo pois: deixai-vos conduzir pelo Espírito, e não satisfareis os apetites da carne; pois são contrários uns aos outros... Se vivemos pelo Espírito, vivamos também de acordo com o Espírito” (Carta de S. Paulo aos gálatas cap. 5, versos 16 e 25). Diante do preposto por S. Paulo, viver de acordo com o Espírito Santo é a chave, a premissa na vida de todo cristão. Ser impregnado pelo Espírito Santo (todo batizado o é), aquele que se abre a ação do Espírito Santo deixando-O assomar em si (quem se deixa batizar no Espírito) vivendo plenamente sob a ação do Espírito por certo fará a vontade de Deus, pois sabemos que o Espírito Santo é Deus próximo a nós. Sta. Edith Stein já dissera: “Espírito Santo, mais próximo de mim que eu de eu mesma, mais intimo de mim que o âmago de minha alma” . O Espírito Santo é Deus em nós; Aquele que nos confere a graça santificante. Portanto se quisermos fazer a vontade de Deus, deixemo-nos guiar por Ele através do Espírito Santo.

Deus nos ama de modo absoluto, todos sabemos disso. Pede que amemos, espera algo de nós, embora não faça disso uma condição. Acima está exposto o nosso modo de amar: condicional. O que Deus nos pede? O que Ele espera de nossa parte? A Palavra nos diz: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o coração, de toda tua alma, de todo teu espírito e amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22, 37.39). É a regra de ouro do cristianismo.  Eis o que Deus espera de nós: ágape, caritas, hessed, filos, não importa a origem linguística da palavra, o que Deus espera é que nos O amemos acima de tudo e de todos e nos amemos como irmãos. Se amamos respeitamos; se respeitamos não ofendemos; se assim agimos não transgredimos; se não transgredimos não pecamos. Eis a razão do Apóstolo S. Paulo nos exortar: “Ao viver sob a ação do Espírito Santo não se está submisso a lei”. (cf. Gl 5). Não que estejamos acima da lei, mas que sob a ação do Espírito jamais descumpriremos as leis, sejam humanas e acima de tudo as Divinas.   É o que Deus espera de nós.
                                
                           
  





sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Do pior para o melhor



O Papa Francisco começou a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium com palavras de fogo: “A alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quantos se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria… O grande risco do mundo atual, com sua múltipla e avassaladora oferta de consumo, é uma tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada. Quando a vida interior se fecha nos próprios interesses, deixa de haver espaço para os outros, já não entram os pobres, já não se ouve a voz de Deus, já não se goza da doce alegria do seu amor, nem fervilha o entusiasmo de fazer o bem. Este é um risco, certo e permanente, que correm também as pessoas que creem. Muitos caem nele, transformando-se em pessoas ressentidas, queixosas, sem vida. Esta não é a escolha de uma vida digna e plena, este não é o desígnio que Deus tem para nós, esta não é a vida no Espírito que jorra do coração de Cristo ressuscitado” (Evangelii Gaudium, 1).
Os discípulos de Jesus de ontem e de sempre receberam de seu Senhor a tarefa de levar a Boa Notícia a todos. Não nos é possível o acomodamento, pois precisamos chegar aos confins da terra, e estes limites tantas vezes estão bem próximos de nós. Evangelizar significa proporcionar a todos, no anúncio do nome de Jesus Cristo, o reconhecimento da própria dignidade e a realização dos anseios de felicidade e à perfeita alegria, mesmo sabendo que a plenitude só se encontrará no Céu, no face a face do amor eterno com a Santíssima Trindade.
Diante da falta de esperança e a escuridão de uma verdadeira noite da cultura, que muitas vezes abate o ânimo da humanidade, com a crise de valores referenciais para os passos a serem dados, a Igreja nos faz a proposta de caminhar no seguimento de Cristo, o único que acende efetivamente as luzes necessárias para o nosso tempo. Buscamos um roteiro consistente, que permita às pessoas dar passos mais seguros!
Acreditar no bem que está no coração das pessoas e na potencialidade que foi nelas plantada pelo próprio Deus. Assim Jesus conduziu seus discípulos num caminho de formação, sem levar em conta o quanto eram limitados. Pedro, Tiago e João, ao subirem com Jesus ao Monte carregavam consigo suas inseguranças e limites. Jesus sabia da existência de uma semente do bem no coração de seus três amigos, assim como conhecia suas fraquezas. Dentro do coração daqueles homens e no coração de todas as pessoas existe o melhor de tudo, que foi plantado pelo próprio Deus. Ele não criou ninguém para a infelicidade! Jesus conduziu seus discípulos a um alto monte, onde se transfigurou. Apontar para o alto do monte. Para frente e para cima, esta é a direção a ser seguida, sem nivelar a existência pelo rodapé.
O Evangelho de São Lucas (Cf. Lc 9,28-36), acrescenta que subiram ao monte “para rezar”. É verdade! Quem olha para frente a para o alto percebe que há outros elementos e uma outra vontade, a de Deus, interferindo no rumo da história. Deus não nos abandona, mas está sempre presente, conduzindo os acontecimentos, sem violar nossa liberdade. Só ele é capaz de agir assim! Rezar significa abrir espaço para a intervenção de Deus.
Os erros existem, o pecado ronda em torno de nós de forma devoradora e destrutiva. Nossa tarefa é identificar o que existe de negativo, dar a nossa contribuição para aperfeiçoar as pessoas, as estruturas e a sociedade, propor soluções concretas para os problemas, sem acomodamento nem denuncismo destruidor, cujo fruto é somente o mal estar corrente em nossos dias, como se a raiva e a revolta conseguissem resolver os impasses.
Os três amigos de Jesus contaram com testemunhas de alto valor: Moisés e Elias – Lei e Profetas, a nuvem luminosa do Espírito que os envolveu e a voz do Pai. Em nossa aventura cotidiana, além da voz de Deus, é frequente contar com a ajuda das pessoas que convivem conosco. Apurar o que as outras pessoas fazem, como respondem aos problemas, ouvir o testemunho de gente envolvida, não desprezar o caminho feito por muitos que já apanharam muito para enfrentar dificuldades semelhantes, valorizando o fato de que temos na Igreja uma miríade de testemunhas, especialmente os santos e santas, que lutaram e se dedicaram, cada um em seu tempo e seu contexto de vida, para ajudar o mundo a ser melhor. Basta recordar o próprio Pedro: “Esta voz, nós a ouvimos, vinda do céu, quando estávamos com ele na montanha santa. E assim se tornou ainda mais firme para nós a palavra da profecia, que fazeis bem em ter diante dos olhos, como uma lâmpada que brilha em lugar escuro, até clarear o dia e levantar-se a estrela da manhã em vossos corações” (2 Pd 1,18-19).
 Após a magnífica experiência do Tabor, os discípulos voltaram para a planície do dia a dia surrado, marcado pelo contato com todos os problemas. Ainda por cima, tinham que ficar calados, até a ressurreição de Jesus! (Cf. Mt 17,9). Na maior parte das vezes, trata-se de acender as luzes em silêncio, iluminando a vida das pessoas com o exemplo, outras vezes é o serviço da consolação, feito de escuta e de palavras encorajadoras, para mostrar-lhes o bem existente em seu interior. Vale ainda o esforço para recolher os fragmentos do bem, existentes no meio de tanta maldade. Tudo isso há de ser vivido com o sereno otimismo da fé, com o qual nos firmamos na terra, mas o olhar voltado para e eternidade, aquela que, em Cristo, já está presente em nossa história.
 Dom Alberto Taveira Corrêa
Arcebispo de Belém do Pará
Assessor Eclesiástico da RCCBRASIL



sábado, 11 de novembro de 2017

Um coração que gera vida nova


     Ter um encontro pessoal com Jesus é a vida nova que muitos buscam. Santa Margarida Maria Alacoque (1647-1690) é um verdadeiro testemunho da novidade gerada a partir da íntima comunhão com Cristo. Desde criança, através de uma oração sincera, fez seu desejo de consagração ganhar amplitude em sua vida.
       O constante encontro com o Senhor fez desta singela santa, a portadora de uma devoção que transcorre a história. Mais do que isto, podemos aprender facilmente qual é o caminho e como se percorre. Na devoção ao Sagrado Coração, motivada por Santa Margarida e rapidamente difundida, notamos a disposição de Jesus em nos presentear com uma vida nova, assim como fez com a precursora de tal devoção. De nossa parte, cabe apenas o esforço de ir ao encontro Dele.
      O Coração Sagrado de Jesus se abre a nós como a fonte da qual jorra água viva, a água que sacia, a água nova. É do Coração de Jesus que nasce uma vida pautada em realizar a sua vontade. O ardor que brota deste amabilíssimo coração é o que nos impulsiona a viver por Ele, como acontece com muitos que veem através desta devoção, o nascimento de uma vocação, como realização da vontade de Deus.
      Todos aqueles que buscam uma vida de intimidade com Cristo, são convidados a exercitar o amor por este Coração, pautando nele a razão de viver.
É interessante perceber ainda, o grande número de Grupos de Oração espalhados pelo Brasil que levam esse nome e essa devoção adiante, manifestando e divulgando a experiência que tiveram e, ainda, provando que o coração de Jesus também gera vida nova na vivência com os irmãos.
      Peçamos, de maneira especial, no dia de hoje, a graça de tocarmos no Sagrado Coração. Pela nossa fé, desejemos ser um com Jesus. Mergulhemos nesta fonte de amor, nesta fonte que gera vida.
       Vamos, sem medo e confiantes, ao encontro daquele que nos espera com o coração aberto a acolher nossa pequenez, nossa pobreza, nossa sinceridade. Vamos ao encontro do Coração que quer transformar nossa história. Vamos ao encontro do Sagrado Coração de Jesus e deixemos Ele nos encontrar.
       Sagrado Coração de Jesus, nós confiamos em vós!
                      Rodrigo Ribas- Seminarista Diocesano de Ponta Grossa (PR)
                             Secretário Nacional do Ministério para Seminaristas 
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