sábado, 31 de março de 2012

Retirada dos crucifixos do TJ/RS


Não é demais voltar ao assunto quando não passa um dia sem que a mídia abra espaços para a decisão do Conselho de Magistratura do TJ/RS. Viva! Mais uma façanha do Rio Grande. Noutra despachamos a Ford. Nesta, os crucifixos, enxotados e empacotados.
                                                     
 
Há uma peculiaridade passando batida nessa história. Quem é, mesmo, que quer a remoção? Até hoje, não vi entre as manifestações de apoio à determinação uma única que tenha sido emitida por qualquer das centenas de confissões religiosas em consideração às quais se diz que foi decretada. Embora o relator do processo tenha escrito que o cidadão judeu, o muçulmano, o ateu, ou seja, o não cristão, tem o mesmo direito constitucionalmente assegurado de não se sentir discriminado pela ostentação de símbolo expressivo de outra religião em local público, ninguém, de crença alguma, se manifestou, mesmo que fosse para um simples e protocolar "muito obrigado". Por quê? Por que lhes ficou inequívoco terem sido usados para intenções que também lhes são hostis

As próprias entidades que requereram a retirada dos crucifixos articulam-se em torno de comportamentos sexuais e não sobre religião ou religiões. Nesse mesmo viés, se observamos com acuidade iniciativas análogas, será forçoso perceber que tampouco provêm de crentes ou ateus num sentido genérico, mas de pequena parcela destes últimos - os ateus militantes. Suas manifestações, sistematicamente, se voltam contra o que os símbolos representam, ou seja, as religiões, cuja influência na sociedade anseiam por eliminar. Mostram, especialmente em relação ao cristianismo, animosidade e um conhecimento de panfleto. Sempre mencionam Cruzadas, Inquisição e Galileu, mas parecem incapazes de escrever meia página séria sobre esses temas pois tudo que repetem, vida afora, foi o que ouviram por aí, servido como nutrição ideológica. Desculpem-me o sarcasmo, mas passei os últimos dias lendo tais tolices aportadas anacronicamente como se fossem argumentos para justificar a retirada dos crucifixos! Pior do que desconhecer pelo não uso da inteligência é conhecer raivosamente pelo uso do fígado. Corre-se o risco de passar por cima do tesouro e ir catar lixo logo adiante. Esse exótico discernimento, assumido nos poderes de Estado, resulta danoso à identidade nacional, ofensivo à história do Brasil, depreciativo ao que há de melhor na civilização ocidental e agressivo a um bem do espírito e da cultura considerado precioso pela imensa maioria do povo deste país! Mas a história ensina: é preciso gerar descrédito ao que merece respeito para, depois, exigir respeito ao que não merece.

De um artigo de Percival Puggina – Paredes Nuas

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quarta-feira, 28 de março de 2012

Semana Santa


Esta prestes a iniciar a semana das semanas para nós católicos: a SEMANA SANTA! Quaresma é tempo forte de oração, conversão, adoração que culmina na Semana Santa, na Páscoa, ápice da nossa fé. O feriadão da Semana Santa está chegando. Para os não católicos um fim de semana cheio, no calor das praias ou no friozinho da montanha. Mas para os católicos – católicos verdadeiros, com fé atuante – é tempo de reflexão e participação das celebrações. Vai viajar? Viaje, mas participe das celebrações na igreja local.

Fica aqui o convite: dia 1 de abril- Domingo de Ramos; onde celebramos a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém.

5 de abril-Quinta feira Santa; lembramos a angustia de Jesus no Getsamani, a instituição da Eucaristia, o sacerdócio, na  Missa do lava-pés. Ao término da Celebração Eucarística somos convocados à Vigília da Paixão, onde relembramos a vigília de Jesus no Horto das Oliveiras.

6 de abril-Sexta feira da Paixão; quando recordamos de modo contrito, o sacrifício de amor do Cristo por cada um de nós. O único dia em todo o ano em que não há Missa. Acontece uma cerimônia litúrgica em que a comunhão é dada com a reserva eucarística. 

7 de abril-Sábado de Aleluia; o grande dia, a Vigília Pascal com a proclamação da Páscoa num canto de júbilo anunciando a RESSURREIÇÃO DO SENHOR.

8 de abril-Domingo da Páscoa; com a ressurreição Jesus prova que a morte não é o fim e que Ele é verdadeiramente Filho de Deus. O silencio contrito de sexta feira transforma-se em esperança e alegria.

Participe ativamente da Semana Santa em sua paróquia.




sábado, 24 de março de 2012

A fé e a razão!


As grandes universidades nasceram católicas e cresceram à sombra da Igreja.


É bem provável que você já tenha ouvido falar de uma eterna luta entre a fé e a razão. A idéia básica desse ilusório conflito é a de que o ato de fé envolve algo que não se pode sentir ou compreender e que, portanto, você precisa optar: ou conserva a fé e perde a cabeça ou conserva a cabeça e perde a fé. Desde antes de surgir a imprensa, toneladas de pergaminhos foram gastas para os tiroteios filosóficos que a questão proporciona. Era a fé cega (crê ou morre) trocando chumbo com a razão cega (não crê e morre igual).

Quando os autores clássicos foram redescobertos, por volta do século XII, viu-se que a discussão apenas atualizava algo que noutro nível já tinha sido abordado por Platão e Aristóteles. E o achado não fez mais do que acrescentar sofisticada pólvora ao arsenal dos intelectuais.

O noticiário desse antigo bate-boca chegou até nós com a manchete de que a Igreja sempre se opôs à evolução das ciências e do pensamento, desejosa de manter a humanidade no nível de estupidez necessário à prosperidade da fé. Nada mais injusto e falso!A discussão sobre as relações entre a fé e a razão começou e evoluiu em ambiente católico, foi proporcionada durante séculos pelos maiores pensadores da Igreja e só encontrou solução dentro dela. Muitos santos e doutores da Igreja - Santo Anselmo, São Bernardo, Santo Alberto Magno, São Boaventura, São Tomás de Aquino, entre outros - tomaram trincheira nesse debate, fazendo com que, aos poucos, as idéias clareassem. A eles se juntaram sucessivas gerações de brilhantes intelectuais (em especial dominicanos e franciscanos), cujo prodigioso saber extasiava os estudantes das antigas universidades. Vale lembrar que todas as grandes universidades nasceram católicas e cresceram à sombra da Igreja.

Foi com seus próprios mestres que a Igreja aprendeu que a razão e a fé se aperfeiçoam reciprocamente. Tornando-se também nesse aspecto, mãe da civilização e da cultura, a Igreja criou as condições para que surgissem as correntes filosóficas apartadas da Teologia. Muitas delas, mais tarde, se voltariam contra a Igreja e contra a própria humanidade.

A razão e a fé efetivamente se aperfeiçoam. Mas quanta razão na fé que manifesta São Bernardo: "Que me importa a filosofia? Meus mestres são os apóstolos; eles não me ensinaram a ler Platão nem a deslindar as sutilezas de Aristóteles mas me ensinaram a viver. E acreditai: essa não é uma pequena ciência". E não é mesmo!

Percival Puggina
Fonte:
www.puggina.org

quarta-feira, 21 de março de 2012

Oração pela família


Senhor nós vos louvamos pela nossa família e agradecemos a vossa presença em nosso lar.

Iluminai-nos para que sejamos capazes de assumir nosso compromisso de fé na Igreja e de participar da vida de nossa comunidade.

Ensina-nos a viver a Vossa palavra e o Novo mandamento do amor, a exemplo da família de Nazaré.

Dai-nos Senhor, boa saúde, trabalho com salário justo e um lar onde possamos viver felizes.

Ensinai-nos a partilhar o que temos com os mais necessitados. Dai-nos a graça de aceitar com fé e serenidade a doença e a morte quando se aproximarem de nossa família.

Ajudai-nos a respeitar e incentivar a vocação de cada um e também daqueles que Deus chamar a seu serviço na vida sacerdotal e religiosa.

Que em nossa família reine a confiança, a fidelidade, o respeito mútuo e que o amor nos uma cada vez mais. Permanecei em nossa família, Senhor. Abençoai nosso lar hoje e sempre. Amém!

Ministério para as Famílias – RCC-Br

domingo, 18 de março de 2012

Desobediência


Jr 34,17-20 – Semana passada falávamos aqui de escuta. Ouvir e obedecer a Deus. Colocar-se a disposição para ouvi-lo, obedece-lo, servi-lo. E a palavra hoje é como um complemento; só que no sentido inverso: a desobediência e suas conseqüências. Ver Jr 34,17-20.

            Nos tempos do AT era comum os pactos e acordos serem selados com a passagem dos contratantes entre as partes esquartejadas de animais sacrificados. Isto significava que aquele que descumprisse o acordo feito teria o mesmo fim que as vitimas do sacrifício.

            O v.17 diz (...). Quem faria passar por isso? Quem faria passar pela fome, pela peste, pela espada? Por certo não seria Deus. O inimigo é que age assim quando nos afastamos de Deus, quando desobedecemos e com isso nos distanciamos de Deus. Aí o inimigo se aproxima, pois estamos vulneráveis, longe da proteção divina. Sós, somos presas fáceis e satanás se aproveita dessa fragilidade para nos atacar. Ao longo da história bíblica o povo de Deus pecava, se penitenciava, era perdoado, voltava a pecar, se arrependia, era perdoado... e assim ia. Mas o pecado tinha conseqüências, provocava seqüelas.

            A desobediência de Adão e Eva, os primeiros homens – na realidade o primeiro grupo humano – nossos antepassados, quebrando o pacto com Deus, gerou todo pecado. Eles não resistiram a tentação, caíram e o pecado entrou no mundo e com o pecado a dor, o sofrimento, a morte. Ao pecarem perderam a plenitude da graça e ficaram reduzidos ao mínimo da condição humana.

            O ser humano possui corpo e alma. Um corpo animal, que está acima de todo animal; uma alma imortal, porém inferior aos anjos, pois estamos ligados à carne. Quando não se tem cuidado com o próprio corpo, peca-se contra si mesmo. Quando profanamos nosso corpo, morada do Espírito Santo, ofendemos gravemente a Deus, autor e dono de nossa vida.  Podemos até mesmo falar de duas dimensões do pecado. Vertical e horizontal. Vertical, quando afrontamos diretamente Deus e horizontal quando num mesmo nível, num mesmo patamar, ofendemos ao próximo e a nós mesmos, dessa forma ofendendo também a Deus.

             Deus nos gerou para a perfeição, nos criou a sua imagem e semelhança. Se não somos perfeitos, é porque fomos desfigurados pelo pecado e quebramos o espelho que refletia Deus em nós. Por causa da desobediência, a natureza humana perdeu a graça na própria origem, por isso o chamado pecado original.

            Felizmente temos um Deus misericordioso que se fez carne e deu-se a si mesmo em sacrifício expiatório. Jesus com sua morte de cruz, sua ressurreição, redimiu a humanidade de todos os pecados, de ontem, de hoje, de sempre. Jesus, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. E Jesus nos deixou sua Igreja e a Igreja nos dá os sacramentos. O batismo que nos lava do pecado original, onde rejeitamos a herança negativa e renascemos para uma vida nova. E se depois disso, viermos a vacilar, cair em tentação e pecar, Deus em sua infinita misericórdia nos oferece a confissão, onde poderemos ser perdoados e nos reconciliar com Ele.  
Carlos Nunes

sábado, 10 de março de 2012

Escuta e Prática da Palavra de Deus


Uma mãe instrui e educa o filho na expectativa de vê-lo crescer saudável, obediente e fiel. Um estudante se prepara na escola para fazer boas provas, passar de série, formar-se, ter uma profissão, tornar-se um cidadão respeitável.

            É isso que de certa forma Tiago nos apresenta em Tg 1,19-25. Ele nos pede que ouçamos e ponhamos em prática a Palavra de Deus. Que saibamos ouvir e obedecer. A Palavra tem que nos preencher, nos transformar. Aquele que ouve a Palavra de Deus e não retém no coração é como guardar água num balde furado. Ouvir a Deus, aceitar a Palavra de Deus; ouvir, aceitar, reter, guardar a Palavra de Deus. Guardar, não para acumular egoisticamente, mas para usufruir dela, para usá-la como fonte de salvação para si próprio e para os irmãos. (ver Rm 2,13).

            Não adianta multiplicar palavras, mesmo em oração, quando o coração está vazio. Nesta hora é melhor calar, é melhor silenciar para ouvir. Nenhum de nós é capaz de ouvir, entender, reconhecer uma voz em meio a um burburinho, um vozerio, principalmente quando nós mesmos falamos. Muitos reclamam que Deus não lhes fala, que carismas não são manifestados. Deus fala sim! Eles é que não ouvem. Falam, falam, falam, falam sem parar e não deixam espaço para Deus, não dão tempo para Deus. E mesmo quando Deus, às vezes atropela e fala, eles não percebem, não ouvem, tão mergulhados estão em seus próprios problemas.

            Tiago nos lembra que devemos usar a Palavra para não cair no erro. (ver Mt 7,24-27). Devemos também usar a Palavra para fugir do pecado, para viver os frutos do Espírito Santo: mansidão, amor, temperança, caridade, esperança, paz; e não viver sob a carne, cujos frutos são: malicia, devassidão, ódio, contendas, orgulho, violência, idolatria, etc.

            A leitura nos remete também a Primeira Epistola de São João (I Jo 3,17s). A fé sem obras é morta, nos diz Tiago mais adiante. A fé por si só não é caminho de salvação. Ela tem que ser acrescida de obras. Assim como a caridade sem fé, sem amor, não é caridade, é filantropia. De nada vale uma fé fervorosa se ela não é vivenciada, acompanhada de amor ao próximo, perdão as ofensas, caridade. Do mesmo modo é inútil a obra vazia, destituída de amor, sem a fé necessária que nos conduz ao caminho da verdade; tal obra se constitui em mero ativismo. A oração é como uma via de mão dupla; a cada pedido nosso, em contrapartida, Deus nos pede algo. O milagre de Caná só se realizou porque os homens encheram as talhas a pedido de Jesus. Lázaro retornou da morte após terem rolado a pedra do túmulo, a pedido de Jesus. O possível Ele quer que façamos, o impossível, o milagre Ele faz.
Carlos Nunes

             


quarta-feira, 7 de março de 2012

CLÉRIGOS E ABUSOS SEXUAIS


O Simpósio "Cura e renovação" para bispos e superiores religiosos, realizado com o apoio da Congregação para a Doutrina da Fé, colocou em debate o tema dos abusos sexuais cometidos por clérigos. O assessor canônico da CNBB, Fr. Evaldo Xavier Gomes, participou das reflexões e a presidência da Conferência emitiu nota oficial por ocasião do encerramento do encontro.

Nota da CNBB por ocasião do encerramento do Simpósio para "Cura e Renovação" - para bispos católicos e os superiores religiosos, realizado em Roma, na Pontifícia Universidade Gregoriana, de 6 a 9 de fevereiro de 2012:
Nos últimos anos, diversas denúncias de abusos sexuais contra menores cometidos por membros do clero causaram dor e feridas à Igreja, em diversas partes do mundo. Essas ações delituosas ocorreram também em nosso país. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) tem se preocupado em discutir e refletir sobre este tema e em buscar caminhos para prevenir, combater e eliminar esses abusos e outros, que não condizem com a vida e a missão do presbítero. Com este escopo, diversas ações efetivas e concretas foram e estão sendo realizadas pelo episcopado brasileiro.
Em âmbito nacional, a presidência da CNBB fez um pronunciamento oficial, em maio 2010, no qual considera: "o tratamento do delito deve levar em consideração três atitudes: para o pecado, a conversão, a misericórdia e o perdão; para o delito a aplicação das penalidades (eclesiástica e civil); para a patologia, o tratamento". Foi aprovado na 48ª. Assembleia Geral da CNBB, realizada em Brasília no mesmo ano, o documento "Diretrizes Gerais para formação dos presbíteros da Igreja no Brasil" (Doc 93), com o propósito de dar uma resposta efetiva aos sinais dos tempos e aos consequentes desafios da mudança de época enfrentados pela Igreja no Brasil. Este documento concede especial atenção à necessidade de uma rigorosa seleção dos candidatos ao diaconato e ao sacerdócio, e à formação humano-afetiva, comunitária, espiritual, pastoral-missionária e intelectual oferecida nos seminários. Além das Diretrizes, a CNBB, por meio da Organização dos Seminários e Institutos Filosófico-Teológico do Brasil (OSIB), tem organizado encontros de estudo e reflexão para formadores, diretores espirituais e profissionais que acompanham os candidatos nas casas de formação.
Especificamente sobre o problema dos abusos sexuais cometidos por clérigos, tendo estudado o tema com ajuda de especialistas em diversas áreas do conhecimento, a CNBB elaborou o documento intitulado "Orientações e Procedimentos Relativos às Acusações de Abuso Sexual Contra Menores", dirigido ao episcopado brasileiro. Aprovado pelo Conselho Permanente da CNBB, o documento foi enviado à Santa Sé para obter o placet. Por meio destas orientações, a CNBB procura tomar posição firme e coerente, de prevenção e reparação, em relação aos abusos sexuais cometidos por membros do clero. A posição consolidada é a de que não há lugar para impunidade e silêncio ou conivência para com aqueles que cometem tais atos abomináveis. Toda e qualquer vítima indefesa de ação pecaminosa de um clérigo exige atenção, proteção e acompanhamento.
Fiel ao evangelho de Cristo, a Igreja Católica no Brasil, corajosamente, se coloca do lado dos indefesos, dos pequenos. Em âmbito local, nas dioceses em que ocorreram denúncias de casos de abusos sexuais contra menores cometidos por clérigos a atitude tem sido sempre a de colaboração com as autoridades públicas, de punição dos culpados e de assistência às vítimas. Ainda há muito que fazer não somente no âmbito interno da Igreja, mas também da sociedade. Não existem caminhos prontos. O que não se pode afirmar é que a CNBB não tem se preocupado suficientemente com questões tão delicadas e complexas, como ocorreu durante o Simpósio "Cura e Renovação", realizado em Roma, de 6 a 9 de fevereiro. A CNBB, com as orientações da Santa Sé, se encontra em um caminho efetivo de conversão e renovação para que seja, hoje e sempre, fiel à missão que lhe foi confiada por Jesus Cristo de anunciar o Evangelho, Caminho, Verdade e Vida, a todos os povos.
13/2/2012

Cardeal Raymundo Damasceno Assis
Arcebispo de Aparecida e presidente da CNBB
Dom Leonardo Ulrich Steiner
Bispo Auxiliar de Brasília e secretário geral da CNBB


sábado, 3 de março de 2012

Reconstrói a minha casa


“É então o momento de habitardes em casas confortáveis, estando esta casa em ruínas?” (Ag 1,4). Este versículo extraído do livro do profeta Ageu vem falar do estado de penúria em que se encontrava o templo do Senhor. Assim mesmo, isolado do contexto histórico, esta Palavra vem para nós hoje como “rhema”. Nós (os batizados) somos templos vivos do Espírito Santo e quantos não estamos em ruínas? Quantos procuramos habitação em casas confortáveis e arruinamos o templo do Espírito Santo? Quantos buscamos o “conforto” que o mundo nos oferece, somos atraídos e seduzidos pelo canto de sereia que continuamente entoa a nosso redor; quantos nos deixamos acomodar como que entorpecidos pelos ditames dos modismos que nos são impostos. Quantos nos aviltamos com veleidades, ignomínia, voluptuosidade, imoralidades. A quanto desleixo nos submetemos. Com isso nosso corpo, templo vivo do Espírito Santo, se corrompe, se degrada, se destrói.

Quantos irmãos em nossa comunidade de fé estão passando por momentos difíceis, sofrendo tribulações, vivendo tempos de aridez e arrefecimento da fé. Quantos estão nesta situação e nós nem notamos; não percebemos que um sorriso desapareceu, não percebemos um olhar de tristeza e o pior, nem percebemos as ausências. Quando tudo nos vai bem, egoisticamente (habitamos casas confortáveis) nem notamos o outro que às vezes está em ruínas.

Comumente não notamos o outro porque não notamos nem valorizamos nós próprios. Quando supervalorizamos o externo, subvalorizamos ou mesmo desvalorizamos o interior. Por isso muitos “templos em ruínas”. Corpos enfermos, doentes por conta do descuido com a saúde. Emocional abalado por conta dos desvarios comportamentais. Distúrbios psíquicos por conta de traumas emocionais, problemas existenciais mal resolvidos, e, não podemos deixar de citar, todos esses males são invariavelmente consequências do pecado.

Quando temos por valores a irresponsabilidade social (primeiro eu e se sobrar alguma coisa, eles...), o hedonismo (prazer pelo prazer, o meu é claro...), o relativismo (tudo é relativo, portanto se é errado para um não é para outro, não existe pecado...), a indiferença religiosa (queiram ou não, as religiões são paradigmas éticos e morais), a cultura do tudo posso, tudo faço, tudo me é permitido, nos leva a decadência moral, tendo como conseqüência atitudes que sem que se perceba, levam a autodestruição.

Por isso o Senhor nos diz: Reconstruam minha casa! Abandonemos os desregramentos morais e comportamentais e volvamos nosso rosto ao rosto de Deus, pois Ele nunca se voltou contra nenhum de nós, mesmo que você não tenha tido percepção disso. Abandonemos os vícios, o mau proceder e reconstruamos o templo do Senhor, nosso eu. Ainda há tempo, sempre haverá tempo. Mas é sempre bom lembrar: tudo nos é permitido, mas nem tudo nos convém.  

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Fraternidade e saúde publica


Que a saúde se difunda sobre a terra (cf. Eclo 38,8).

 Vivemos na quaresma tempo de deserto, tempo de escuta. Tempo de nos colocarmos a disposição do Senhor para que Ele faça sua obra em nós. Na quaresma a Igreja do Brasil organiza e celebra a Campanha da Fraternidade. Este ano – 2012 – o tema é Fraternidade e Saúde Publica.

Saúde não é apenas ausência de enfermidades; saúde é bem estar pleno: físico, mental, emocional.   A saúde é imprescindível e direito de todos. Mas quando se refere à saúde publica sabemos que a maioria não usufrui esse direito. A assistência a saúde no Brasil (leia-se SUS) é precaríssima. A omissão, a negligência, a indolência são progressivas; vão desde o atendente nos postos de saúde até as altas autoridades. As autoridades em muitos casos fazem vistas grossas, pois suas prioridades são outras; os médicos na grande maioria são mal remunerados, mal formados, e não me refiro a formação estritamente profissional, mas sim a formação humana; os atendentes omissos e preguiçosos, porque se miram nos superiores. Assim nossa saúde vai de mal a pior. Alguém é capaz de refutar isso?

Os que podem – e no grosso da população são poucos – utilizam-se dos planos de saúde particulares. Planos esses que a meu ver são co-responsáveis pelos problemas na assistência médica no Brasil. Quanto mais os planos de saúde crescem e se difundem, mais problemática se torna a saúde publica. Imaginemos que a Saúde Publica no Brasil se tornasse paradigma de eficiência e qualidade para outras nações; os planos de saúde privados sucumbiriam.

Nesta quaresma que nossas autoridades se rendam ao amor fraterno, deixem Deus ser Deus e agir em suas vidas. Reconheçam as carências do nosso povo sofrido: educação, saúde, segurança. Primem e zelem pelo retorno coerente de nossos impostos, investindo mais nestes itens e não cortando verbas para a saúde! (O maior corte no orçamento da União em 2012 foi no Min. da Saúde: 5,4 bilhões).

Só nos resta dobrar os joelhos e pedir a Deus que se compadeça de nós, não deixando as moléstias do corpo nos atingirem. As da alma, sabemos, ele cuida e cuida muito bem.  

  




domingo, 19 de fevereiro de 2012

A prosperidade


Numa visão antiga, que vem sendo muito retomada nos últimos tempos, é a ideia de que Deus recompensa os bons e castiga os maus nesta vida. O que está claro é que a vida humana vive de altos e baixos, de alegrias e sofrimentos, o que constitui um mistério.

Pensando bem, não há explicação para o sofrimento. Jó nos mostra que Deus está presente onde o ser humano sofre. Nos evangelhos entendemos que Jesus cura quem sofre, mostra que Deus conhece o sofrimento do humano por dentro e o assume até o fim.

Falar de prosperidade é ater-se a uma vida sem sofrimento, de mirar para alvo que só ocasiona gozo e alegria. Esta pode ser uma visão cristã da vida, isto é, prosperidade significando intimidade com Deus, realizando o maior de todos os mandamentos, o amor.

É contra os princípios do evangelho ancorar-se na artimanha da prosperidade, para ferir a liberdade das pessoas, extorquindo delas bens materiais. Pior ainda quando isto é feito em nome de Deus. Isto passa a causar a queda de quem é "fraco na fé".
O anúncio da Palavra de Deus pode estar cheio de ambiguidades, carregado de atitudes escusas. Ela pode ser instrumentalizada para atender aquilo que não favorece o bem comum. Deixa de ser uma Palavra de gratuidade e de transformação.

A Palavra de Deus é fonte de prosperidade espiritual. Ela aciona os corações e as mentes para a liberdade e abertura ao verdadeiro bem. Não pode ser "privatizada" para bens materiais e enriquecimento ilícito, explorando a sensibilidade das pessoas.
Não podemos ver nas doenças e sofrimentos um castigo. Aí acontece a manifestação do mistério divino. Sabemos que muitos sofrimentos são provocados por imprudências, vícios e atitudes irresponsáveis. Normalmente, o egoísmo aumenta o sofrimento.

É violência enganar as pessoas com falsas promessas de prosperidade, que até causam nos sofredores um sentimento de culpa. Muitos se perguntam: que fiz de errado? Por que mereci isto? O importante é dar sinais do amor de Deus, que é nosso Pai.
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Dom Paulo Mendes Peixoto - Bispo de São José do Rio Preto (SP)







domingo, 12 de fevereiro de 2012

Não tenho tempo!



O Eclesiastes é um interessante livro bíblico, do Antigo Testamento. Seu nome vem do grego e significa: o homem da assembléia; aquele que toma a palavra na sinagoga. Escrito em hebraico pelo ano 250 a.C, esse livro comprova a influência da cultura grega na Judéia. Um tema atravessa, de modo especial, todos os seus capítulos: a precariedade das ocupações humanas. Tudo é "vaidade", ou seja, tudo é neblina, fumaça e ilusão. Pessimista? Diria que não. Seu autor, um sábio ancião, quer instruir os jovens a viver com realismo e seriedade. É o que se conclui, por exemplo, com suas observações sobre o desenrolar do tempo: "Tudo tem seu tempo, há um momento oportuno para cada empreendimento debaixo do céu. Tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de colher a planta (...); tempo de chorar e tempo de rir" (Ecl 3, 1-2.4). A partir de suas observações, faço as minhas.

Um dia, quando se escrever um livro sobre o nosso século, talvez se escolha como título: "A época dos homens sem tempo". Afinal, nenhuma justificativa é tão usada como a da falta de tempo. Ninguém tem tempo. Nem os adultos (no telefone, depois de não ter ido à reunião: "Pois é, infelizmente não tive tempo..."), nem os jovens (ao professor na Faculdade: "Por que ainda não entreguei o trabalho? Tempo, falta de tempo!..." ) e até as crianças (à mãe, que pede ao filho para fazer um serviço: "Ah! Mãe, logo agora que não tenho tempo?").

Alguns não se dedicam a clubes de serviço porque não têm tempo. Outros não visitam seus parentes porque "não se tem mais tempo para nada". Aquele jovem não estuda, este não trabalha e você nada lê porque lhes falta tempo. "Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas, como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos", é a irônica observação da Raposa ao Pequeno Príncipe.

A conclusão a que se chega - conclusão óbvia, clara, cristalina - é que há alguma coisa errada. Essa evidência se acentua quando se ouve a desculpa daqueles que cortaram, aos poucos, todo relacionamento com Deus, por um motivo muito simples: não têm tempo! "Gostaria de ir à missa, mas não tenho tempo. Desejaria ler o Evangelho, pensar nos outros, rezar, ser voluntário em algum hospital mas, infelizmente não tenho tempo". Se o ser humano não tem mais tempo para cultivar sua amizade com o Pai ou para ir em direção a seus irmãos, alguma coisa está mesmo errada. Demos, pois, uma de pesquisador: procuremos o culpado por essa situação insustentável.
Seria Deus? Afinal, foi Ele que deu o tempo ao ser humano. Mas, talvez lhe tenha dado pouco tempo: afinal, há tanto que fazer!... Contudo, convenhamos: seria um absurdo pensar assim. Ele certamente dá aos homens e mulheres o tempo suficiente para que possam fazer o que Ele quer. Mais: Ele só espera de cada pessoa o que ela tem condições de fazer.

O problema da falta de tempo teria como causa o próprio ser humano? (De você, por exemplo?). Afinal, quem consegue realizar tudo o que gostaria? Dada à nossa insatisfação contínua, por mais que alguém aja, fale ou pense, sempre falta pensar, falar ou fazer alguma coisa. Novos horizontes se abrem diante de cada caminho percorrido. O que fazer, então? ("Fazer mais alguma coisa ainda? Mas eu já disse que não tenho tempo!..."). Abra o Evangelho. Ouça o que Cristo tem a dizer sobre isso: "Marta, Marta, tu te preocupas com muitas coisas. E, contudo, uma só é necessária". O que seria o essencial na vida, o único necessário? Deve se tratar, sem dúvida, de uma realidade que permaneça sempre, que não passe com o tempo, que continue a existir mesmo após a morte - que é, para cada um, o fim do tempo.

Um dia, um doutor da lei perguntou a Jesus o que era mais importante - isto é, o que é que era essencial e resumia sua doutrina. A resposta do Mestre foi simples: o amor. O amor ao Pai e o amor aos irmãos. O resto, isto é, o que cada um vai fazer, pensar ou dizer, será uma consequência de seu amor. Ora, se alguém não tem tempo nem para se doar, que pobreza! Talvez seria melhor não ter recebido tempo algum!...
Dom Murilo S.R. Krieger, scj
Arcebispo de São Salvador da Bahia - BA

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

O aborto destrói as pessoas






   Abortos crescem junto com as leis que o liberalizam

 
ROMA, (06/02/2012 - ZENIT.org) - Em 19 de janeiro, foi publicado no site da revista médica Lancet um artigo com os números do aborto no mundo entre 1995 e 2008. Os autores do texto declaram: "As leis restritivas ao aborto não estão associados a menores taxas de aborto". Não surpreende que a publicação tenha sido imediatamente adotada por vários grupos pró-aborto para apoiar a liberalização da prática em todas as nações.
    
    A base das tentativas de liberalização é o assim chamado "aborto seguro", para o qual a legalização completa seria um elemento essencial, embora não exaustivo. Trata-se de esforços para convencer os governos, particularmente os da América do Sul, de que uma possível descriminalização do aborto só poderia resultar em progresso, porque impediria as complicações dos aborto clandestinos sem elevar o número de abortos realizados.
   
     Mas podemos perguntar se essa leitura é respeitosa da realidade ou apenas uma representação conveniente para uma perspectiva muito ideológica.
   
     Um elemento de reflexão vem da constatação de quem são os autores: membros do Instituto Guttmacher, que é uma formidável máquina de propaganda do aborto, historicamente ligada à maior rede de clínicas de aborto dos Estados Unidos, a Planned Parenthood. O Instituto Guttmacher faz parte do lobby pró-aborto, que pede das instituições internacionais o reconhecimento da interrupção voluntária da gravidez como parte dos chamados "direitos reprodutivos".
   
     Os autores afirmam que processaram os dados de seu estudo a partir de uma variedade de fontes: outros estudos publicados, relatórios ocasionais, pareceres de peritos. Como uma tal miscelânea possa ter embasado as estimativas referidas no artigo é um mistério obscuro, que dista muito da transparência de métodos que deveria permitir a verificabilidade e a reprodutibilidade do método científico de Galileu. Já de outra coisa temos mais conhecimento: do enorme grau de variabilidade e de incerteza que sustenta todos os métodos usados para estimar os abortos clandestinos.
   
     Basta comparar as estimativas do número de abortos antes da legalização em alguns países ocidentais.
   
Para a Itália, Grandolfo fornece o número de 350.000 abortos antes da legalização, enquanto Figà Talamanca dá estimativas que, com base em vários modelos matemáticos, vão de 220.000 até 3.640.000, enquanto o professor Colombo apresenta como dado mais provável o de 100.000 abortos por ano.
   
     Na França, a agência nacional de estatística, Ined, avalia que, antes da lei do aborto, o número era de 250.000. Já Thierry Lefevre fala de 55.000 a 90.000. Na Inglaterra, citavam-se 100.000 abortos antes da abortion act de 1967, ao passo que outras publicações científicas estimavam o número entre 15.000 e 31.000
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    Não pode ser subestimado, ainda, o testemunho direto do norte-americano Dr. Nathanson, fundador da NARAL (Associação Nacional para a Revogação das Leis de Aborto), convertido à causa pró-vida e ao catolicismo. Ele comprova que houve um exagero proposital na quantidade alegada de abortos nos Estados Unidos, como técnica para criar a impressão de que o aborto era muito difundido no país e precisava ser legalizado.
   
    Resta uma consideração a ser feita sobre o uso de dados brutos a respeito de fatores paralelos, que podem modificar os próprios dados sobre o aborto em si. O mundo "pró-escolha" (favorável ao aborto) utiliza, por exemplo, todos os possíveis co-fatores a fim de tentar diminuir a probabilidade de que os problemas psicológicos nas mulheres que fizeram abortos se devam ao próprio fato de terem abortado.
   
     Eles argumentam que a causa de tais problemas não é o aborto em si, mas toda uma série de fatores que predispõem as mulheres com problemas de saúde mental a abortarem com mais probabilidade. É de se perguntar por que os especialistas que publicaram o estudo na Lancet não corrigiram os dados sobre o aborto com base nos vários fatores que influenciam o recurso a essa prática: renda, religião, raça, fertilidade, escolaridade, para citar apenas alguns.
   
     De uma coisa podemos estar certos: legalizar o aborto é aceitar que o número de abortos vai aumentar. Isto não é uma tese, mas um fato demonstrado na Itália, na Romênia, nos Estados Unidos, no Peru. E mostra claramente que lutar por leis restritivas significa lutar pela vida.

***  Renzo Puccetti, professor na Faculdade de Bioética do Ateneu Regina Apostolorum