sexta-feira, 24 de junho de 2016

Amai-vos como Eu vos amei



Fomos chamados por Deus à novidade de vida, a participar de sua maravilhosa obra, que aponta para o alto e para frente. O Apocalipse nos faz sonhar alto! “Esta é a morada de Deus-com-os-homens. Ele vai morar junto deles. Eles serão o seu povo, e o próprio Deus-com-eles será seu Deus. Ele enxugará toda lágrima dos seus olhos. A morte não existirá mais, e não haverá mais luto, nem grito, nem dor, porque as coisas anteriores passaram”. Aquele que está sentado no trono disse: “Eis que faço novas todas as coisas” (Ap 21, 3-4). O quadro social, político e econômico em que se encontra o mundo, em nossos dias e aqui, bem em nossa pátria, parece contradizer o que, sendo sonho de Deus, deveria tornar-se projeto da humanidade. É impressionante como se espalha o confronto e o ódio entre as pessoas, a violência se instala, os grupos e partidos, cuja vocação deveria ser o cultivo da legítima diversidade, tornam-se adversários e inimigos. Da vizinhança, passando pelas ruas, estádios, praças e a sociedade, chega às raias do absurdo o quanto se pretende eliminar o diferente, sejam quais forem as bandeiras empunhadas pelas muitas partesenvolvidas.

Há muito tempo atrás (Cf. At 14, 21-27), Paulo e Barnabé, da primeira geração de cristãos, empreenderam viagens missionárias, nas quais primaram pela criatividade e solicitude. Algumas atitudes assumidas por eles podem iluminar nossos dias e a desafiadora tarefa dos cristãos, chamados a serem neste tempo que se chama “hoje”, anunciadores da Boa Nova do Evangelho. A todos afirmavam ser necessário “passar por muitos sofrimentos para entrar no Reino de Deus” (Cf. At 14, 23). É ilusório pretender um mundo renovado sem a entrega da própria vida, inclusive com a prontidão à imolação e ao derramamento do próprio sangue. Não nos enganemos! Nossa salvação e a salvação do mundo passam necessariamente pela Cruz! O enfrentamento dos obstáculos exige iniciativa, coragem para dar o primeiro passo na busca da reconciliação, prontidão para os esforços mais duros e exigentes, tudo ungido pela serenidade de quem busca acima de tudo a vontade deDeus.

Outra atitude notável foi a confiança que Paulo e Barnabé depositaram em pessoas escolhidas como presbíteros, gente de responsabilidade colocada à frente das Comunidades. No início dos Atos dos Apóstolos, tinham surgido outros servidores (At 6, 1-6), sete homens aos quais foi entregue o serviço da caridade, início do que hoje chamamos de Diáconos. De lá para cá, a Igreja foi sempre desafiada a discernir os caminhos indicados pelo Espírito Santo, valorizar os carismas, promover novas lideranças, ajudá-las a se prepararem bem, lançá-las a novas tarefas e identificar os desafios missionários, para sair de si mesma, para que todos, sem exceção, se lancem a campo, para que sejamos,naexpressãotãocaraaoPapaFrancisco,umaIgreja“emsaída”, formada por discípulos que sejam efetivamente missionários! Assim, anunciaremos a Palavra e poderemos contar uns aos outros como Deus abre as portas da fé em nosso tempo (Cf. At 14,25.27).

Entretanto, por mais que nos esforcemos, os recursos humanos são limitados, nossas forças são desproporcionais ao tamanho do desafio. Só no Céu está a solução! O cristianismo não é um código de leis destinadas ao bom comportamento ou, quem sabe, a normatização das relações sociais que constituem a cidadania. Em nosso país, multiplicam-se as leis, a organização de Conselhos, a regulamentação do convívio social, pretende-se unificar os programas educacionais, inclusive contendo princípios que contradizem nossas convicções religiosas e os valores morais e éticos. O resultado está aí, bem à nossa vista. Como falta o Céu como referência, a terra se estraga, mesmo com milhares de páginas escritas. Como faltam homens e mulheres renovados por dentro, o desastre se faz e searrasta.

No Céu está a solução. “Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros. Nisto conhecerão todos que sois os meus discípulos: se vos amardes uns aos outros” (Jo 13, 34-35). O segredo está na palavrinha “como”. Se as relações humanas forem apenas humanas, não levarão muito adiante a mudança da sociedade. O modelo está no Céu, do jeito como o Pai ama o Filho, o Filho ama o Pai e este amor é o Espírito Santo. O amor de Deus é sem medida, sem limites. Ele nos amou por primeiro, toma a iniciativa, tem a reciprocidade como princípio, não cobra do outro, entrega-se totalmente. Volto à palavra “sonho”. O desastre entre nós é justamente achar que o projeto de Deus é irreal, não tem o pé no chão, que realistas somos nós que fazemos treinamento de tiro ao alvo com olhares e gestos, para o duelo cotidiano!

O Apóstolo São Paulo (1 Cor 13, 4-7), depois de descrever os muitos dons e carismas presentes nas Comunidades cristãs, aponta o caminho que chama de excelente, no hino à caridade: “O amor é paciente, é benfazejo; não é invejoso, não é presunçoso nem se incha de orgulho; não faz nada de vergonhoso, não é interesseiro, não se encoleriza, não leva em conta o mal sofrido; não se alegra com a injustiça, mas fica alegre com a verdade. Ele desculpa tudo, crê tudo, espera tudo, suporta tudo”. O Papa Francisco tomou este texto como referência ao descrever, de modo surpreendente, o amor no matrimônio, na Exortação Apostólica “Amoris lætitia”, cuja leitura recomendo. Diante da grave crise da família em nossos dias, o Papa não tem receio de propor o modelo do Céu, quando propõe à família hodierna a paciência, como exercício da misericórdia, indica o caminho para que o amor seja recíproco e se manifesta na ternura do afeto e das obras, para penetrar toda a vida. Diz o Papa que convém cuidar da alegria do amor gratuito, ou insiste com os jovens no casamento por amor, ou dá “dicas” para o diálogo em família. Cabe a nós desfrutar estes ensinamentos e ampliá-los, como incendiários, partindo do fogo do afeto da caridade no lar, para alcançar as comunidades, passar pelas nossas ruas e chegar ao mundointeiro!
D. Alberto Taveira







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