quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Postura e os gestos na Santa Missa


Postura
A Liturgia é feita de gestos e símbolos. Dizia-nos o papa Paulo IV sobre a postura: “Talvez vos possa parecer que a Liturgia está feita de coisas pequenas: atitudes do corpo, genuflexões, inclinações de cabeça, movimentos do incensório, do missal, das galhetas. É então que se devem recordar aquelas palavras do Cristo no Evangelho: quem é fiel no pouco sê-lo-á no muito (Lc 16, 16). Por outro lado, nada é pequeno na Santa Liturgia, quando se pensa na grandeza daquele a quem se dirige”. A imagem é bastante clara, toda e qualquer ação litúrgica não está em seu lugar por um mero acaso, ao contrário, está naquele momento e é daquela forma porque a Igreja entende que é assim, e não de qualquer outra forma, que se pode mais facilmente elevar ao alto nossos corações ao encontro de Deus.
O Missal Romano, de uma forma bastante sucinta e direta, diz-nos que todos os gestos e posturas devem ser realizados com a simplicidade e nobreza que são característicos do Rito Romano e que eles sejam capazes de, ao serem realizados com a simplicidade e nobreza que são características do Rito Romano e que eles sejam capazes de, ao serem realizados, ajudar o entendimento daquilo que se celebra e, ao mesmo tempo, que melhor possamos celebrá-lo.
Normalmente, os gestos e posturas são realizados por todos (seja por toda a Assembleia ou por todos os que estão no Presbitério – como é o caso de estar de mãos-postas) e isso, igualmente, indica a profunda unidade que toda a Assembleia reunida como Corpo Místico de Cristo deve possuir em seu seio.
Mãos postas ou juntas
Ter as mãos postas é o que poderíamos chamar de postura padrão do Presbitério e faz parte da prática tradicional do Rito Romano desde há muitos séculos, mesmo que o Missal Romano não o cite como exemplo ao falar das práticas tradicionais, a posição é citada no Cerimonial dos Bispos. As mãos ficam juntas, palma com palma, os dedos juntos, sendo o polegar direito acima do polegar esquerdo em forma de cruz. Todos aqueles que estão no Presbitério, a não ser que o Rito especifique o contrário (por exemplo, os padres concelebrantes no momento da “Consagração” ou o Bispo ao levar o báculo), devem manter-se assim. A postura deve ser observada tanto ao andar do Presbitério, como ao permanecer nele. Essa postura só não será esteticamente bonita se for realizada de forma forçada ou com desleixo.
Sempre que uma das mãos está ocupada e outra livre, a livre vai para o peito (a não ser na “Oração Eucarística”, onde a mão esquerda encostará no Altar).
Estar sentado
Estar sentado é uma forma de mostrar atenção. Normalmente, senta-se de costas ereta na cadeira, mas sem parecer que o gesto é forçado, com as palmas das mãos sobre os joelhos. É esteticamente belo e faz parte da Tradição da Igreja, o Cerimonial dos Bispos o indica para o bispo quando ele não segura nada, logo, acaba aplicando-se a todos os que estão no Presbitério estando ou não o Ordinário presente.
O sinal da cruz
O sinal da cruz é feito com calma, leveza e beleza. Para fazê-lo a pessoa colocará a mão esquerda sobre o peito e traçará a cruz sobre si com a mão direita, sobre a testa e o peito, ombro esquerdo e ombro direito, juntando, em seguida, as mãos novamente.
Durante o “Evangelho” há ainda a repetição do sinal da cruz por duas vezes. Uma é feita no livro (lecionário ou Evangeliário), com a mão direita sobre a cruz do início do texto, enquanto a mão esquerda está junto ao peito. O outro é feito por todos, de modo suave e calmo, na forma de três cruzes: na testa, nos lábios e no peito.
Por fim, o sacerdote traça o sinal da cruz sobre o povo ao abençoá-lo. Neste caso, a mão esquerda repousa sobre o peito e a direita abençoa traçando o sinal da cruz em direção a aqueles que serão abençoados. Cabe lembrar que apenas o bispo pode realizar a benção fazendo três cruzes.
Reverência
Na Forma Ordinária do Rito Romano a Reverência é bastante simples, mas um pouco relegada a segundo plano. Existem dois tipos e a cada um deles se atribui a reverência e a honra a quem recebe a inclinação.
A Inclinação de cabeça, ou seja, uma leve inclinação apenas de cabeça, faz-se ao nomear as três pessoas da Santíssima Trindade (“Glória ao Pai…”); aos Santos Nomes de Jesus (acompanhado ou não com “Cristo”, mas não apenas a “Cristo”), de Maria e do santo da qual se celebra a festa, solenidade ou memória, seja na Santa Missa ou na Liturgia das Horas.
A Inclinação de corpo é mais profunda, curvando-se a cabeça junto com os ombros de modo profundo e mantendo as mãos postas. Ela faz-se ao Altar, ao chegar e ao sair do Presbitério, além de ao passar diante do Altar, o sacerdote o faz a algumas orações (“Ó Deus todo poderoso, purificai-me…” e “De coração contrito e humilde…”) e no Cânon Romano (ao dizer “Nós vos suplicamos…”); todos o fazem no “Símbolo” as palavras “E se encarnou…” ou “nasceu da Virgem Maria”; o diácono o faz ao pedir a benção para proclamar o Evangelho. Se os fiéis ficaram de pé durante a Consagração, fazem inclinação profunda durante ou depois de cada uma delas, também eles o fazem ao receber a benção solene, possivelmente com o convite do diácono. Os sacerdotes concelebrantes realizam na Consagração, enquanto o sacerdote celebrante genuflete. Ela é realizada, igualmente, antes e depois de se incensar pessoas e objetos. Faz-se, sempre, ao bispo, seja ao aproximar-se, deixa-lo ou passar por ele.
Cabe aqui ressaltar algo, se está o bispo sentado atrás do Altar, onde normalmente está a Cátedra ou a Cadeira, a reverência é feita a quem a pessoa se dirige, por exemplo, se dirige ao bispo, reverencia-o e não ao Altar. Para evitar conflitos de reverência, deve-se evitar passar em frente ao bispo (logo, entre ele e o Altar) quando a disposição do Presbitério for a citada acima, para que haja, igualmente, um respeito guardado aos dois.
Genuflexão
A genuflexão é o ato de tocar o solo com o joelho direito, mantendo o esquerdo dobrado e significa adoração. Faz-se, sempre, ao Santíssimo Sacramento. Se há Tabernáculo no Altar se faz genuflexão ao entrar e sair do Presbitério, porém, não durante a Missa, ou seja, faz-se genuflexão apenas ao se aproximar do Presbitério no início da Missa e ao deixá-lo no final, não se faz durante a Missa, logo, quem se aproxima do Presbitério, por exemplo, para proclamar uma Leitura, fará apenas a reverência devida ao Altar. Se se passa processionalmente de frente a um Tabernáculo, não se faz genuflexão.
Caminhar
Caminhar, especialmente de modo processional, é muito importante no Rito Romano e deve-se saber como fazê-lo. Normalmente, caminha-se com as mãos postas, sem pressa e mantendo-se certa distância daquele que está a sua frente. O mesmo diz-se de quando se anda, por exemplo, no Presbitério, deve-se fazê-lo com calma e de modo ordenado, sem demonstrar pressa, mesmo que se tenha algumas vezes.
Oscular
Oscular é um ato que demonstra mais que a simples veneração que, por exemplo, exercemos ao realizarmos uma reverência. É um leve tocar de lábios no objeto que queremos reverenciar. Realiza-se poucas vezes na Liturgia, sendo que demonstra a grande veneração que merecem o Altar e o Evangeliário, dependendo do Tempo Litúrgico também a Cruz.
Incensar
Não se deve pensar que o ato de incensar seja supérfluo, ao contrário, deve-se ter um manejo com o turíbulo evitando vários problemas com isso. Em uma Celebração da Santa Missa, normalmente, usa-se incenso ou incensa-se: a “Procissão de Entrada”, a Cruz e o Altar, a “Procissão do Evangelho”, as oferendas e o Povo e as Espécies Consagradas na “Consagração”. Na Liturgia das Horas celebrada de forma solene incensa-se o Altar quando entoa-se o “Cântico Evangélico”. Da mesma forma, na Exposição Solene do Santíssimo Sacramento se deve usar sempre o turíbulo.

Em si, o turíbulo é composto de uma base fixa presa a três correntes, de uma parte móvel – que chamamos de opérculo – que desliza sobre as correntes, e uma parte fixa no topo destes, de onde saem as correntes, que chamamos de cápsula. Existe uma arte de incensar, devendo-se fazê-lo com calma e leveza e é apropriado que todos aqueles realizam as incensações e tomam parte como turiferário na santa liturgia pratiquem o ato de incensar, até encontrar a graça e beleza necessária nesta função.
Para a Santa Missa, dependendo do carvão usado, deve-se começar a preparar o turíbulo até vinte minutos antes da celebração. Se o carvão for especial, cerca de dez minutos são suficientes, porém, se o carvão não for apropriado (ou seja, normalmente o carvão vegetal comum), deve-se começar a sua preparação com bastante antecedência. Para o início da celebração, as brasas devem estar de tal forma que queimem o incenso imediatamente ao deitarem-no nelas. Durante a Celebração, pode-se ser necessário trocar ou colocar mais brasas nele, por isso, é necessário, e parece ser mias simples, se fazer as brasas em um recipiente a parte do turíbulo e ir colocando mais nele conforme a necessidade. Na Santa Missa, especialmente, pode haver a necessidade de mais brasas entre as incensações do “Evangelho” e do “Ofertório”. O turiferário deve ficar atento em relação a isso, evitando surpresas desagradáveis (como carvões que não queimam o incenso, apenas cinzas sem brasas ou turíbulos que soltam labaredas).
Existem dois movimentos do turíbulo que denominamos “ducto” e “icto” e cada um deles é usado em determinado momento da Celebração. O ducto é o movimento de balançar o turíbulo duas vezes. Na Celebração pode-se incensar com dois ductos ou três, dependendo da situação. Incensa-se com dois ductos: as relíquias e imagens de Santos expostos à pública veneração, porém, aquelas imagens que contém a imagem de nosso Senhor o são incensadas com três. Com três ductos são incensadas o Santíssimo Sacramento, a relíquia da Santa Cruz e imagens do Senhor solenemente expostas, as oferendas, a cruz do alto, o livro dos Evangelhos, o círio pascal, o Presidente da celebração, os concelebrantes, o coro, o povo e o corpo de defunto.
Já o icto é o movimento do turíbulo balançado apenas uma vez em direção a um objeto e usa-se duas vezes na Missa: quando se incensa o Altar, fazendo-se com ictos sucessivos.
Há sempre duas normas a serem realizadas antes da incensação: o sacerdote sempre que depõe incenso no turíbulo o abençoa com o sinal da cruz sem nada dizer; sempre que se aproxima ou se se retira para incensar um objeto ou pessoa, faz-se uma reverência profunda a ele, porém, não se faz reverência ao Altar ou as oferendas.
Normalmente, o turíbulo é apresentado para que lhe deitem incenso de tal forma que facilite o ato, ou seja, que nenhuma corrente atrapalhe o mesmo. Assim, faz-se, normalmente, o seguinte: o turiferário, tendo o naviculário (vulgarmente chamado de “naveteiro” no Brasil) com a naveta aberta a sua esquerda, abre o turíbulo puxando o cadeado do opérculo para cima com a mão direita, com a mão esquerda junto ao peito, ele segurará a cápsula ou pouco abaixo dela, enquanto que com a mão direita segurará os cadeados, as correntes, que sustentam a base. Tendo aberto o turíbulo, o turiferário o coloca na direção e altura necessária para que seja imposto incenso nele, com o cuidado de que nenhuma corrente atrapalhe (por estar no meio, ou possa bater) na colher. O sacerdote ou o bispo imporá incenso no turibulo, tomando a colher e deitando-o, tradicionalmente, três vezes. O turiferário manter-se-á assim até o incenso tenha sido abençoado, depois, ele descerá com calma a corrente do opérculo, mantendo-o pouco aberto, mudando de mão a cápsula, se necessário (como o será, por exemplo, na “Procissão de Entrada”).
Nas procissões, o turíbulo vai à mão direita, balançando-se para frente e para trás do lado do corpo do turiferário, enquanto a mão esquerda fica na altura do peito; neste caso, o naviculário carregará a naveta do lado esquerdo do turiferário, mantendo-a fechada. Dependendo da igreja ou dos costumes, ele pode ser usado não de forma paralela, mas quase diagonal ao corpo. De modo tradicional e, normalmente quando há diáconos presentes que servirão junto ao turibulo, pode-se, inclusive ter-se apenas uma pessoa que leve o turibulo e a neveta, neste caso: o turiferário carregará com a mão direita o turibulo, tendo o polegar na argola maior e o médio na argola menor da corrente e sem mover o braço ou corpo, balançando-o diagonalmente em relação a si, enquanto que, com a mão esquerda no peito, segurará a base da naveta.
Para se incensar algo com ductus, normalmente procede-se assim: o turiferário abre um pouco o turíbulo puxando o opérculo para cima com a mão direita, com a mão esquerda junto ao peito ele segurará a cápsula, enquanto que com a mão direita ele segura as correntes que sustentam a base e, consequentemente, o opérculo que estará pouco acima dela. Ele erguerá o turibulo a altura dos olhos e realizará as duas balançadas do mesmo. Se for necessário incensar-se três vezes com ductus (como no Evangelho ou à cruz), não se precisa descer o turíbulo a cada ductus, apenas dá-se uma pausa entre cada um deles.
Para se entregar o turíbulo para alguém, tomando-se que todos são destros, normalmente faz-se assim: a mão esquerda segurará o topo da cápsula e a direita o topo do opérculo, assim, o diácono ou sacerdote que for recebe-lo já o receberá de tal forma que poderá começar a incensar normalmente, sem precisar trocar de mão. Para receber, faz-se o procedimento acima, recebendo com as mãos opostas.
Tradicionalmente, incensa-se também em ordem, primeiramente o centro, depois à esquerda e a direita.
Braços abertos
Quando falamos de braços abertos aqui, estamos falando da posição da oração do sacerdote celebrante, principalmente. É a posição das imagens “Orans” em iconografia cristã primitiva: uma mulher com as mãos erguidas em oração. Não existe uma postura padrão em relação a ela, apenas deve-se evitar exageros ou minimalismo. Abre-se os braços, normalmente com as palmas das mãos voltadas uma em direção a outra, de uma forma natural e singela.
Mãos estendidas
Já a posição de ter as mãos estendidas é quando as direcionam a um objeto ou a uma pessoa. Neste caso, os braços são estendidos sobre o objeto com as palmas das mãos voltadas a ele, como, por exemplo, no caso da epiclese antes da Consagração.
A voz
Quando falamos da voz do leitor ou daquele que lê e proclama um texto (o diácono ou o sacerdote, por exemplo) e, também, a do cantor, o mais importante é que ela deve ser clara. O sacerdote, por seu ministério, deve ler, recitar, ou cantar as partes da Santa Missa que lhe cabem com voz alta e clara, a não ser que as rubricas indiquem o contrário, por exemplo, quando realiza-se o “Ofertório”. Neste caso, as orações ditas pelo sacerdote em segredo acabam por não passar de sussurros, porém elas devem ser recitadas vocal e não apenas mentalmente, mesmo que apenas o sacerdote a ouça. Sempre que o sacerdote fala em alta voz os instrumentos devem calar.
O silêncio
Uma forma bastante eloquente de se poder ter um encontro pessoal e intimo com o Senhor é o próprio silêncio. Se a música é uma forma de ultrapassar as limitações que a própria fala nos traz no encontro com o Senhor, o silêncio é uma forma de saber que, muitas vezes, nem nossos cantos ou nossas palavras são suficientes no encontro com o nosso Deus. A calma deve transparecer na celebração, fazendo com que pelo canto, pela fala e pelo silêncio todos possam ser conduzidos a uma participação espiritualmente ativa e frutuosa, incluindo aqui a meditação pessoal do Mistério que é celebração. A começar, o Missal pede que haja silêncio na igreja antes do início da celebração, para propiciar um clima de oração.
O silêncio servirá de muito na Santa Missa: no “Ato Penitencial” ele ajudará e levará ao recolhimento e reconhecimento das próprias faltas, entre as “Leituras” ele levará a meditação do que foi proclamado, no pós-Comunhão ele será uma forma de encontro profundo e repleto de alegria ao Cristo que acaba de ser recebido.
Infelizmente, existe uma tendência a um excessivo ruído nas Celebrações Eucarísticas. Além de se cantar tudo o que é possível (algumas vezes com alterações grotescas de letras musicais ou sentidos), costuma-se cantar o que não existe e se evitar qualquer momento de silêncio. Isso deve vir de um mal entendimento da participação ativa, não como uma participação frutuosa para a alma (que demanda o uso de voz, mas também a interiorização pelo silêncio), mas um excessivo “agir”: canta-se, pula-se, grita-se, cai-se ao chão, porque, para alguns, o silêncio seria um forma de negar a participação. Esta mentalidade deve ser combatida duramente, especialmente com a catequese, para se entender não apenas a importância do silêncio, mas a sua necessidade para se aprofundar verdadeiramente no encontro com o Senhor.
Para refletir: Certa vez, disse um padre na homilia, que nosso Senhor é muito bem educado, Ele só irá falar quando fizermos o silêncio para escutá-lo.
A memorização
Na Santa Missa, tanto o sacerdote como o diácono realizam orações conhecidas como “secretas”, que são orações pessoais e rituais ditas em voz baixa. Normalmente, essas orações estão presentes no Missal Romano, mas também é bom que se as saibam de memória.
Ao sacerdote, seria bom que ele soubesse a oração ao pedir a benção para proclamar o Evangelho (no caso de uma concelebração com o bispo): “Dá-me a tua…”; a antes da “Proclamação do Evangelho”: “Ó Deus todo-poderoso…” e ao beijá-lo: “Pelas Palavras…”; ao deitar água no vinho: “Por esta água…”; também as do “Ofertório”: “Bendito sejais…”; da “Purificação das mãos”: “Lavai-me, Senhor…”; a oração ao realizar a partilha do pão e coloca-lo junto ao vinho: “Esta união…”; a antes de sua Comunhão: “Senhor Jesus Cristo Filho…” e a sua opção: “Senhor Jesus Cristo, o vosso…”; as da sua Comunhão: “O Corpo de Cristo…” e “Que o Sangue…”; a da purificação do cálice: “Fazei, Senhor…”.
O diácono deve saber a oração ao pedir a benção antes do Evangelho: “Dá-me a tua…”; a antes de proclamá-lo e ao beijá-lo: “Pelas palavras…”; ao preparar o cálice deitando-lhe água: “Pelo mistério desta…”.
Retirado do livro: Entrarei no Altar de Deus, Michel Pagiossi Silva, Ed. Cultor de Livros



sábado, 7 de novembro de 2015

Breve reflexão sobre as virtudes cardeais


Penso que, como simples amostra, podem-nos ajudar algumas pinceladas sobre as quatro virtudes cardeais. Serão rápidas, impressionistas, e mostrarão apenas umas poucas moedas do tesouro riquíssimo que guarda cada uma delas.
Prudência. Como ajuda e enche de segurança ter um pai que seja alegre, sensato e reflexivo! Que não improvise. Que não dê decepções a toda a hora, mudando de planos sem mais nem menos. Que não dê sustos por ter-se esquecido de controlar as contas bancárias, ou os prazos disto ou daquilo; que não precise ouvir aquelas palavras do Paraíso de Dante: Siate, cristiani, a muovervi più gravi: non siate come pena ad ogni vento… (“Caminhai, cristão, com mais ponderação: não sejais qual pena movida por qualquer vento…”).
Justiça. Como faz bem aos filhos ter um pai e uma mãe que cumprem o que prometem! Que não se desdizem, porque ficou mais difícil aquele passeio com os filhos e estão cansados e são comodistas. Que não tratam os filhos como números, com ordens genéricas, iguais para todos, como se o lar fosse um quartel, mas, como pede a justiça, tratam desigualmente os filhos desiguais (logicamente, não por mimo ou preferências injustas). Que, se fazem uma repreensão justa e prometem um pequeno ou médio castigo (castigo grande quase nunca se justifica), não amolecem, mas cumprem, sem deixar de cercar o filho punido da certeza de que é muito amado e só se quer o seu bem.
E fazem bem aos filhos outras “justiças” menores do cotidiano. Por exemplo, saber que os pais não se aproveitam nunca de um troco errado (devolvem ao caixa a diferença), nem dão jeitos para enganar e deixar de pagar uma entrada, que qualquer pessoa honesta paga.
Fortaleza. Bastaria lembrarmo-nos da mãe que admirávamos há pouco. Mas é também um exemplo maravilhoso viver num clima familiar em que não se ouvem queixas nem reclamações. Em que ninguém se julga mártir ou vítima. Em que o pai, exausto, é capaz de ficar brincando com os filhos, interessando-se pelas suas pequenas problemáticas ou pelos seus sonhos e alegrias, e tudo isso sabendo oferecer a todos um sorriso afável, no meio da pena ou do esgotamento. Pais que sempre projetam a bela luz da paciência e da constância.
Temperança. Que grande exemplo dão os pais que nunca são vistos, nem dentro nem fora de casa, nem nos dias de trabalho nem aos domingos, e feriados, abusando da comida e da bebida! Que não se iludem, achando que vão enganar os filhos dizendo-lhes que se trata só de um “aperitivo” ou uma “cervejinha” de que precisam muito porque andam fatigados e faz bem para a saúde, quando os filhos os veem claramente “altos”, com a voz gosmenta e as pernas bambeando por excesso de álcool. Pelo contrário, como toca o coração ver uma mão que habitualmente “gosta” do pedaço de carne que tem mais nervos e gorduras, ou ver o pai que “gosta” do cinema que a mãe adora…, mesmo em dias em que joga o seu time.
E a temperança na TV e na Internet? Acham que os filhos são tolos? Em matéria de informática, quase sempre dão um solene “chapéu” nos pais, e descobrem muito facilmente – pois ainda não aprenderam a viver a virtude da discrição e a controlar a curiosidade – a quantidade de sites inconvenientes que o pai visitou, como se fosse um adolescente com obsessão sexual neurótica.
E em matéria de humildade, que São Tomás de Aquino situa no âmbito da temperança? Como se nota a falta de humildade e como faz mal! Por isso, é tão formativo que os filhos percebam que os pais não se deixam arrastar por mesquinharias de susceptibilidade, por mágoas persistentes, por rancores e incapacidade de perdoar. Que nunca vejam os pais virando o rosto para ninguém, nem dominados por espírito de revide e vingança, nem com raiva do cunhado que fez isso ou da tia que fez aquilo…
Virtudes humanas! São tantas as que os pais deveriam cultivar, como uma lâmpada que brilha em lugar escuro… (1Pe 1, 19)! Cultivar virtudes e ensiná-las aos filhos, com a autoridade moral que dá o exemplo, é um empreendimento árduo, mas é decisivo, e, por isso, deve ser enfrentado pelos pais (tendo uma intensa vida interior, muita formação cristã, exame de consciência todas as noites, direção espiritual, etc.), e, com a graça de Deus, deve ser levado a termo. Oxalá os filhos, quando crescerem, possam dizer que nunca se apagou deles a imagem do pai, a imagem da mãe, e que até à velhice o pai e a mãe continuaram a iluminar lhes a vida.
Isto foi o que aconteceu a um amigo meu muito chegado. A imagem dos pais ficou-lhe gravada para sempre, como uma estrela orientadora. E veio a tomar uma consciência mais plena dessa bela realidade quando aconteceu o fato que transcrevo a seguir, usando literalmente as palavras com que ele descreveu:
Por ocasião de um centenário
“Meu pai morreu com 85 anos de idade, em 1987. Quando ia começar o ano de 2002, filhos, netos, amigos e colegas da sua profissão jurídica resolveram honrar lhe a memória, comemorando, com diversas celebrações – alhures, lá na terra onde ele nasceu e viveu -, o centenário do seu nascimento. Para uma dessas celebrações, ocorreu-me preparar umas palavras de público agradecimento – de gratidão filial -, sob o título: O que eu aprendi de meu pai.
“Penso que pode ser esclarecedor acrescentar que redigi esse texto em cima da hora, deixando os dedos e o coração correrem espontaneamente pelo teclado do computador. Tal como o texto surgiu e foi lido na cerimônia, transcrevo-o a seguir:
“– De meu pai, eu aprendi o valor da simplicidade. Lembrando-me dele, compreendo muito bem que essa virtude amável é o segredo da autêntica grandeza.
“– De meu pai aprendi o que significa respeito profundo por cada ser humano. Para ele, um ajudante de pedreiro ou uma humilde faxineira tinha tanto ou mais valor que o presidente de uma grande companhia. E, no seu escritório de advogado-tabelião, o problema dos limites da minúscula horta de dona Maria <> tanto como a constituição de uma grande sociedade.
“– Ao pensar no meu pai, ainda hoje fico comovido toda vez que me recordo do respeito que tinha pelos seus seis filhos. Não os dominava nem os descurava: educava-os dentro de profundos valores cristãos (em comunhão estreita com a mãe), mas sempre respeitando-lhes as opções, as preferências, as escolhas nobres, a vocação, a liberdade responsável.
“– De meu pai aprendi que não há alma tão amável como aquela que possui, no seu fundo mais íntimo, o tesouro da humildade. E que não existe coisa mais ridícula que o inchaço do orgulhoso, os ares de grandeza do convencido e a correria ansiosa do ambicioso. Eu diria que ele somente conheceu aquelas pequeninas vaidades, minúsculas e até infantis, que não embaçam a humildade de coração.
“– De meu pai aprendi também a alegria única que proporcionam as coisas mais singelas do mundo, como as festas familiares, as tradições do lar, os passeios no campo, a observação dos pássaros, das árvores, dos plantios e das pastagens, os “bate-papos” com os amigos, e as leituras repousadas de livros bons.
 “– De meu pai aprendi que certas nuvens escuras, que poderiam toldar seriamente o convívio familiar, podem dissipar-se ou atenuar-se muito com uma pitada de bom humor sem ácido e sem fel.
“– De meu pai aprendi que é possível viver uma longa vida sem guardar nem uma migalha de ódio, de inveja ou de rancor, movido apenas pelo impulso permanente de bondade.
“– De meu pai aprendi que o coração só se sente bem com a verdade, e que a menor mentira incomoda e faz mal.
“– De meu pai aprendi o que é ser amigo dos amigos, apenas pela alegria de tê-los e de ficar feliz vendo que estão contentes.
“– De meu pai aprendi a grandeza de sermos fiéis aos autênticos valores e convicções. Vendo-o, aprendi que, debaixo de Deus, há infinitas maravilhas; mas que por cima ou à margem de Deus não há nenhuma, pois Ele é <> a maravilha e sem Ele nenhuma o é…
“– De meu pai aprendi como é grande e cativante o homem que vive a fé com a mesma naturalidade com que respira, sem exibicionismo nem retórica, mas também sem respeitos humanos nem receio de se mostrar como cristão.
“– De meu pai aprendi como é belo não se preocupar nem um pouquinho com o que os outros possam pensar ou dizer, quando se possui um coração reto, uma intenção pura e boa vontade…
“– De meu pai aprendi… tantas coisas! Perdão. Desde o inicio destas evocações, eu deveria ter dito tudo de maneira diferente. Eu deveria ter dito: – De meu pai eu poderia ter aprendido tantas coisas boas! E de minha mãe, que mereceria uma evocação igual. Que Deus me perdoe por não ter sabido fazê-lo como eles mereciam!…”
Estas foram as palavras lidas naquela homenagem. “Relendo-as depois – comentava ainda o meu amigo –, dei-me conta de que só fiquei falando do exemplo. Isto me tem ajudado a valorizar o exemplo, como a melhor herança que os pais podem deixar os filhos”.
Texto retirado do livro: A Força do exemplo, Francisco Faus



quarta-feira, 4 de novembro de 2015

O Ecumenismo - Unidade na Igreja

                     “Pois, como em um só corpo temos muitos membros e cada um dos nossos membros tem diferente função, assim nós, embora sejamos muitos, formamos um só corpo em Cristo, e cada um de nós é membro um do outro. Temos dons diferentes, conforme a graça que nos foi conferida. Aquele que tem o dom da profecia exerça-o conforme a fé. Aquele que é chamado ao ministério, dedique-se ao ministério. Se tem o dom de ensinar, que ensine; o dom de exortar, que exorte; aquele que distribui as esmolas faça-o com simplicidade; aquele que preside, presida com zelo; aquele que exerce a misericórdia, que o faça com afabilidade.” (Romanos 12, 4-8)
                     “Rogo-vos, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que todos estejais em pleno acordo e que não haja entre vós divisões. Vivei em boa harmonia, no mesmo espírito e no mesmo sentimento.” (1Corintios 1, 10)
                     “Porque, como o corpo é um todo tendo muitos membros, e todos os membros do corpo, embora muitos formasse um só corpo, assim também é Cristo. Em um só Espírito fomos batizados todos nós, para formar um só corpo, judeus ou gregos, escravos ou livres; e todos fomos impregnados do mesmo Espírito. Assim o corpo não consiste em um só membro, mas em muitos. Se o pé dissesse: Eu não sou a mão; por isso, não sou do corpo, acaso deixaria ele de ser do corpo? E se a orelha dissesse: Eu não sou o olho; por isso, não sou do corpo, deixaria ela de ser do corpo? Se o corpo todo fosse olho, onde estaria o ouvido? Se fosse todo ouvido, onde estaria o olfato? Mas Deus dispôs no corpo cada um dos membros como lhe aprouve. Se todos fossem um só membro, onde estaria o corpo? Há, pois, muitos membros, mas um só corpo. O olho não pode dizer à mão: Eu não preciso de ti; nem a cabeça aos pés: Não necessito de vós. Antes, pelo contrário, os membros do corpo que parecem os mais fracos, são os mais necessários. E os membros do corpo que temos por menos honrosos, a esses cobrimos com mais decoro. Os que em nós são menos decentes, recatamo-los com maior empenho, ao passo que os membros decentes não reclamam tal cuidado. Deus dispôs o corpo de tal modo que deu maior honra aos membros que não a têm, para que não haja dissensões no corpo e que os membros tenham o mesmo cuidado uns para com os outros. Se um membro sofre, todos os membros padecem com ele; e se um membro é tratado com carinho, todos os outros se congratulam por ele. Ora, vós sois o corpo de Cristo e cada um, de sua parte, é um dos seus membros.”
 (1Corintios 12, 12-27)
                      “Agora, porém, graças a Jesus Cristo, vós que antes estáveis longe, vos tornastes presentes, pelo sangue de Cristo. Porque é ele a nossa paz, ele que de dois povos fez um só, destruindo o muro de inimizade que os separava, abolindo na própria carne a lei, os preceitos e as prescrições. Desse modo, ele queria fazer em si mesmo dos dois povos uma única humanidade nova pelo restabelecimento da paz, e reconciliá-los ambos com Deus, reunidos num só corpo pela virtude da cruz, aniquilando nela a inimizade. Veio para anunciar a paz a vós que estáveis longe, e a paz também àqueles que estavam perto; porquanto é por ele que ambos temos acesso junto ao Pai num mesmo espírito. Consequentemente, já não sois hóspedes nem peregrinos, mas sois concidadãos dos santos e membros da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, tendo por pedra angular o próprio Cristo Jesus. É nele que todo edifício, harmonicamente disposto, se levanta até formar um templo santo no Senhor. É nele que também vós outros entrais conjuntamente, pelo Espírito, na estrutura do edifício que se torna a habitação de Deus.” (Efésios 2, 13-22)
                     “Sede solícitos em conservar a unidade do Espírito no vínculo da paz. Sede um só corpo e um só espírito, assim como fostes chamados pela vossa vocação a uma só esperança. Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo. Há um só Deus e Pai de todos, que atua acima de todos, por todos e em todos.” (Efésios 4, 3-6)
                     “Cumpre, somente, que vos mostreis em vosso proceder dignos do Evangelho de Cristo. Quer eu vá ter convosco quer permaneça ausente, desejo ouvir que estais firmes em um só espírito, lutando unanimemente pela fé do Evangelho.” (Filipenses 1, 27)
                     “Se me é possível, pois, alguma consolação em Cristo, algum caridoso estímulo, alguma comunhão no Espírito, alguma ternura e compaixão, completai a minha alegria, permanecendo unidos. Tende um mesmo amor, uma só alma e os mesmos pensamentos.” (Filipenses 2, 1-2)
                      “Aí não haverá mais grego nem judeu, nem bárbaro nem cita, nem escravo nem livre, mas somente Cristo, que será tudo em todos. Portanto, como eleitos de Deus, santos e queridos, revesti-vos de entranhada misericórdia, de bondade, humildade, doçura, paciência. Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente, toda vez que tiverdes queixa contra outrem. Como o Senhor vos perdoou, assim perdoai também vós. Mas, acima de tudo, revesti-vos da caridade, que é o vínculo da perfeição. Triunfe em vossos corações a paz de Cristo, para a qual fostes chamados a fim de formar um único corpo. E sede agradecidos.” (Colossesnses 3, 11-15)





sábado, 31 de outubro de 2015

Louvado sejas, Meu Senhor


"Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas. Só a ti é devido o louvor, ó Altíssimo Deus Criador. Altíssimo, onipotente, bom Senhor, são teus o louvor, a glória, a honra e toda a bênção. Só a ti, Altíssimo, são devidos, e homem algum é digno de pronunciar teu nome. Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas, especialmente o senhor, irmão sol que clareia o dia e com sua luz nos alumia. E ele é belo e radiante com grande esplendor: de ti, Altíssimo, é a imagem. Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã lua e as estrelas que no céu formaste claras e preciosas e belas. Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão vento, pelo ar nublado ou sereno e por todo o tempo, pelo qual, às tuas criaturas, dás alimento. Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão fogo, pelo qual iluminas a noite. Ele é belo e alegre é vigoroso e forte. Louvado sejas, meu Senhor, por nossa irmã, a mãe terra, que nos sustenta e governa e produz frutos diversos e coloridas flores e ervas. Louvado sejas, meu Senhor, pelos que perdoam por teu amor e suportam enfermidades e tribulações. Felizes os que sustentam as provações em paz: por ti, altíssimo, serão coroados. Louvado sejas, meu Senhor, por nossa irmã, a morte corporal, da qual homem algum pode escapar. Ai dos que morrerem separados de ti. Felizes os que a morte encontrar realizando a tua santíssima vontade! Criaturas todas, louvai e bendizei ao meu Senhor! Dai-lhe graças servindo a Deus com grande humildade!"
O Papa Francisco, no decorrer da Encíclica na qual quis falar à Igreja e ao mundo sobre o cuidado com a "casa comum", oferece a contribuição da Escritura e da Igreja para suscitar diálogo e empenho conjunto, no qual todas as forças atuantes na sociedade podem colaborar (Cf. "Laudato si", capítulo II). É bom, para a humanidade e para o mundo, que conheçamos melhor os compromissos ecológicos que brotam das nossas convicções. Chama de "Evangelho da criação" e afirma que a Igreja Católica está aberta ao diálogo com o pensamento contemporâneo, permitindo várias sínteses entre fé e razão e motivações altas para cuidar da natureza e dos irmãos e irmãs mais frágeis.
Na primeira narração da obra criadora, no livro do Gênesis, o plano de Deus inclui a criação da humanidade. Depois da criação do homem e da mulher, diz-se que "Deus, vendo a sua obra, considerou-a muito boa" (Gn 1, 31). Cada ser humano é criado por amor, feito à imagem e semelhança de Deus (Cf. Gn 1, 26). Como é maravilhosa, afirma extasiado o Papa, a certeza de que a vida de cada pessoa não se perde num caos, num mundo regido pelo puro acaso ou por ciclos que se repetem sem sentido! O Criador pode dizer: "Antes de te haver formado no ventre materno, eu já te conhecia" (Jr 1, 5).
Para a Encíclica, a existência humana se baseia sobre três relações fundamentais intimamente ligadas: com Deus, com o próximo e com a terra. Estas três relações vitais romperam-se não só exteriormente, mas também dentro de nós. É o pecado. A harmonia entre o Criador, a humanidade e toda a criação foi destruída por termos pretendido ocupar o lugar de Deus, recusando reconhecer-nos como criaturas limitadas. Este fato distorceu também a natureza do mandato de "dominar" a terra (Cf. Gn 1, 28) e de a "cultivar e guardar" (Cf. Gn 2, 15). É significativo que a harmonia vivida por São Francisco com todas as criaturas tenha sido interpretada como uma cura daquela ruptura.
Não somos Deus. A terra existe antes de nós e nos foi dada. Os textos bíblicos nos convidam a "cultivar e guardar" o jardim do mundo (Cf. Gn 2, 15). Enquanto "cultivar" quer dizer lavrar ou trabalhar um terreno, "guardar" significa proteger, cuidar, preservar, velar o que implica uma relação de reciprocidade responsável entre o ser humano e a natureza. Cada comunidade pode tomar da bondade da terra aquilo de que necessita para a sua sobrevivência, mas tem o dever de a proteger e garantir a continuidade da sua fertilidade para as gerações futuras. Em última análise, "ao Senhor pertence a terra" (Sl 24/23, 1), a ele pertence "a terra e tudo o que nela existe" (Dt 10, 14). Por isso, Deus proíbe toda a pretensão de posse absoluta: "Nenhuma terra será vendida definitivamente, porque a terra me pertence, e vós sois apenas estrangeiros e meus hóspedes" (Lv 25, 23). Isso implica que o ser humano respeite as leis da natureza e os delicados equilíbrios entre os seres deste mundo.
Jesus retoma a fé bíblica no Deus criador e destaca um dado fundamental: Deus é Pai (Cf. Mt 11, 25). Jesus convidava os discípulos a reconhecer a relação paterna que Deus tem com todas as criaturas e recordava lhes, com comovente ternura, como cada uma delas era importante aos olhos dele: "Não se vendem cinco pássaros por duas pequeninas moedas? Contudo, nenhum deles passa despercebido diante de Deus" (Lc 12, 6). "Olhai as aves do céu: não semeiam nem ceifam nem recolhem em celeiros; e o vosso Pai celeste as alimenta" (Mt 6, 26).
E o Novo Testamento não nos fala só de Jesus terreno e da sua relação tão concreta e amorosa com o mundo; mostra-o também como ressuscitado e glorioso, presente em toda a criação com o seu domínio universal. "Foi nele que aprouve a Deus fazer habitar toda a plenitude e, por Ele e para Ele, reconciliar todas as coisas, tanto as que estão na terra como as que estão no céu" (Cl 1, 19- 20). Isto nos lança para o fim dos tempos, quando o Filho entregar ao Pai todas as coisas "a fim de que Deus seja tudo em todos" (1 Cor 15, 28). Assim, as criaturas deste mundo já não nos aparecem como uma realidade meramente natural, porque o Ressuscitado as envolve misteriosamente e guia para um destino de plenitude.

D. Alberto Taveira

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Ministério de Música e Artes: Aos moldes de Maria perseverante


A paz de Jesus, meus irmãos!
Sob a luz da palavra pediremos o auxílio de nossa Mãe Maria para permanecermos unidos.
Voltaram eles então para Jerusalém do monte chamado das Oliveiras, que fica perto de Jerusalém, distante uma jornada de sábado. Tendo entrado no cenáculo, subiram ao quarto de cima, onde costumavam permanecer. Eram eles: Pedro e João, Tiago, André, Filipe, Tomé, Bartolomeu, Mateus, Tiago, filho de Alfeu, Simão, o Zelador, e Judas, irmão de Tiago. Todos eles perseveravam unanimemente na oração, juntamente com as mulheres, entre elas Maria, mãe de Jesus, e os irmãos dele. (At 1, 12-14)
Depois da ascensão de Jesus e antes de Pentecostes, Maria e os Apóstolos foram para o Cenáculo. Essa é a cena que mostra os primeiros passos para o nascimento da Igreja. Jesus já não estava mais com eles, e tinham agora a esperança do Paráclito que havia sido prometido. Por isso, foram para o Cenáculo. Lucas faz questão de citar 12 nomes, de cada um dos Apóstolos e o de Maria. Até existiam outras pessoas, mas Lucas quis citar os nomes dos doze.
Perseveravam
Eles estavam sob a ordem de Jesus: E comendo com eles, ordenou-lhes que não se afastassem de Jerusalém, mas que esperassem o cumprimento da promessa de seu Pai”(At 1, 4). A perseverança deles não era fruto de uma ideia própria, e sim obediência à ordem de seu Mestre. A volta deles do Monte das Oliveiras não foi em tom de despedida, e sim com o ânimo das palavras de Jesus. Por isso, estavam motivados e perseverarem. Não foi cada um pro seu canto, pra sua casa, não. Foram todos obedecer à ordem de Jesus. E precisavam ficar lá, naquela sala, como de costume. Não podiam se afastar de Jerusalém, mesmo sem saber o que estava por vir, simplesmente obedeceram e perseveraram.
Podemos levar pra alguns lados essa meditação, mas quero que pensemos no nosso Grupo de Oração. Nós fomos chamados a servir no Grupo de Oração, portanto, o lugar da nossa perseverança é o nosso grupo. Como Renovação Carismática Católica o nosso ministério só se realiza plenamente, em sua totalidade no nosso Grupo de Oração. Nossas raízes estão fincadas no grupo. É como a nossa casa, onde podemos ir pra qualquer lugar, mas temos pra onde voltar.
Lucas diz que o cenáculo era o lugar onde eles costumavam permanecer. Para nós também deve ser assim. A nossa casa é onde a gente permanece, é onde realmente somos enraizados. Lá no grupo é o nosso berço. É onde aprendemos dar os nossos passos. A perseverança no Grupo de Oração legitima nosso ministério. Não há sentido ser missionário com seu ministério e não ser perseverante no Grupo de Oração.
Infelizmente essa é uma das realidades do nosso Movimento. Muitos querem ser missionários, mas não são perseverantes e assíduos em seus Grupos de Oração. Alguns veem os grupos como um estágio: começam, mas já imaginando que podem ser missionários, e assim, deixam o grupo. Ser missionário não é o problema, o que não se pode acontecer é fazer do grupo um degrau, sair por aí cantando, pregando e nunca mais querer servir no grupo. Isso não tem sentido, não tem legitimidade.
Um dia perguntei pra um colega que tocava em um ministério da minha diocese, por que não estava mais tocando em seu grupo de oração. Ele respondeu que tinha desanimado, porque eles tinham parado de fazer shows, e ele não queria mais “só” tocar no grupo de oração.
Sinceramente, foi uma das respostas que mais me doeu neste tempo de caminhada. Era como se tocar no grupo fosse uma regressão. Hoje ele não toca mais em lugar nenhum, nem à missa vai.
Meu ministério também faz eventos fora, como evangelizashows, congressos, retiros etc. Tenho total convicção que a qualquer momento nossos compromissos podem diminuir ou até acabar, e o que seria de mim se eu colocasse nesses tipos de eventos toda a minha razão de ser RCC? Se me faltar convites para tocar em qualquer outro lugar, não sentirei nenhum pouco. Agora, quando falto em meu grupo de oração, aí sim, é uma semana vazia e estranha pra mim. Meu Grupo de Oração é minha raiz, é lá que sou amado e acolhido. A vida missionária é extremamente necessária (mais pra frente trataremos desse assunto), contanto que você tenha pra onde voltar e permanecer.
Os Apóstolos perseveravam em Jerusalém, onde Jesus havia sido morto e os Cristãos passaram a ser perseguidos. Mas eles estavam lá, em meio a essa batalha. Eles perseveravam mesmo na tribulação. Exatamente porque cumpriam o que Jesus havia lhes ordenado, porque estavam enraizados nas palavras do Senhor. Eles não desistiram e perseveraram até vinda do Paráclito.
Nós, porém, se não estivermos como os Apóstolos e Maria, desanimaremos rapidamente. Quem não tem raiz, qualquer vento que sopra é derrubado. Quando é decepcionado, quando é humilhado ou até perseguido, se torna suficiente para que desista. Porque não tem raiz.
A perseverança se prova exatamente na dor, o Apóstolo Paulo vai nos dizer, que a tribulação produz a paciência e a paciência prova a fidelidade e a fidelidade, comprovada, produz a esperança (Rm 5, 3-4). Jesus vai nos dizer: Sereis odiados por causa do meu nome, mas aquele que perseverar até o fim será salvo” (Mt 10, 22). Definitivamente o que se espera de quem foi chamado é a perseverança, mas a perseverança que vai até o fim.
Muitos estão atuando até há muitos anos, mas não são esses perseverantes, porque vivem como se não estivessem ali. Comprometem-se até onde convém e fogem da cruz. Não é essa perseverança que Jesus diz. Jesus está falando de Cruz, de perseguição, de lágrima, de serem odiados. Jesus está falando de martírio, de vazio, desprezo, deserto, renuncia.
Essa perseverança está totalmente ligada ao amor a Jesus. “Mas o que perder a sua vida POR AMOR de mim e do evangelho, salva-la-á” (Mc 8, 35).
Eu costumo dizer que por vezes lamentamos a desistência de muitos irmãos e ficamos preocupados em querer saber por que desistiram, porque pararam... E ficamos somente na lamentação. (Lógico que devemos ir atrás dos que se perderam, mas não é esse o caso). Eu digo, em vez de querer saber o porquê tantos foram embora, pergunte aos perseverantes, porque ficaram. A resposta será uma só: Perseveramos por que amamos ao nosso Senhor!
E Maria? Quem perseverou mais que essa mulher? Chego a me emocionar, só de pensar no quanto nossa Mãe do céu foi tão cheia de amor por seu Deus, que mesmo cheia do Espírito Santo, como nenhum dos Apóstolos, Ela estava lá, junto deles, perseverando unanimemente em oração. A vida de Maria foi uma constante perseverança e persistência. À Maria não foi revelado tudo nitidamente o que ela teria que passar. A Ela não foram dados antes de tudo, os itinerários dolorosos ricos em detalhes que devia seguir. Mas perseverou até o fim, passo a passo. Da alegria da anunciação e magnificat até a solidão e escondimento. Do júbilo dos anjos que cantavam “Glória a Deus nas alturas” até a humilhante e dolorosa morte de seu Filho.
Por isso que não é de se estranhar a delicadeza de Lucas ao comunicar que Maria, a mãe de Jesus, está com os Apóstolos, perseverando unanimemente em oração. Ah Maria... Cada dia nos surpreendendo mais...
Rezemos irmãos Artistas, pela nossa perseverança. Peçamos a Maria que nos ajude a perseverar no amor a Jesus. Que possamos reacender o amor ao nosso Grupo de Oração, que se apagara. O Grupo de Oração é o tesouro de Deus. Rezemos irmãos, rezemos pela perseverança não só sua, mas de todos esses irmãos que caminham com você. Que a Cruz seja pra nós a alegria de provar a nossa fidelidade.
Próximo mês nós continuaremos meditando esses versículos. Graças a Deus, ainda não se esgotou nossa meditação.
Abraços a todos! Um grande abraço desse pobre pecador.
Juninho Cassimiro - Coordenador Nacional do Ministério de Música e Artes-Renovação Carismática Católica do Brasil


sábado, 24 de outubro de 2015

O grande mês das missões

“Eis que estou convosco todos os dias até o fim do mundo”. (Mt 28,20)

É missão de todo batizado ser evangelizador. Ser cristão é ser imitador de Cristo, colaborador Dele na implantação do Reino de Deus no mundo.
O Papa João Paulo II disse um dia que “vai participar do Reino de Deus quem ajudar a construi-lo aqui na terra”. Não é cristão de verdade quem não fala de Cristo e da Igreja. O Batismo nos faz “membros do Corpo de Cristo”, a Igreja; assim, participantes de Sua Missão de salvar o mundo, levando-o para Deus, por meio da vivência dos ensinamentos de Jesus, e tendo uma vida íntima com Ele.
Jesus está vivo e ressuscitado no meio de nós e cada batizado deve ser sua “testemunha” como foram os primeiros Apóstolos. “Sereis minhas testemunhas em Jerusalém, na Samaria… até os confins do mundo”. “Ide!… Pregai o Evangelho a toda criatura”. Esta é a nossa missão. Tanto os intelectuais cristãos quanto os analfabetos podem ser missionários, cada um do seu jeito e no seu lugar. Um velhinha que reza com devoção está construindo o Reino de Deus, como o grande pregador que viaja o mundo.
Só Jesus Cristo pode salvar o homem e o mundo; só Ele pode dar sentido a este mundo. Ele é “a Luz que ilumina o mundo”; por isso Santo Agostinho dizia que “os cristãos são alma do mundo”; isto é, sem eles o mundo não tem vida; é morto.
Jesus disse que o cristão deve ser “o sal da terra e a luz do mundo”. O sal deve salgar para dar sabor e conservar o alimento. Todos os produtos industrializados que são vendidos nos supermercados carregam certa porção de Sódio (sal) para a sua conservação. Se o cristão não “salgar” este mundo, o ambiente em que vive, com o Sal de Cristo, sua Palavra, seu ensinamento, sua Verdade que liberta, o mundo Nós leigos, especialmente, que vivemos nos labirintos mais escondidos do mundo, temos a missão de levar a Luz e o Sal de Cristo nesses ambientes muitas vezes “azedos” e “escuros” onde ainda domina o “príncipe deste mundo”, como disse Jesus.
O batizado tem de ler “luz do mundo”; mesmo se esta luz muitas vezes ofusca as retinas daqueles que estão acostumados a viver nas trevas, e isto gere perseguições, calúnias, difamações… A marca do Cristo, e também do cristão é Cruz, mas ela é libertadora. Sem a Luz de Cristo este mundo é treva densa, mergulhado no pecado o orgulho, da vaidade, da vanglória, do exibicionismo, das paixões da carne cada vez mais desregradas, da prostituição, do homossexualismo, dos abortos, adultérios, dos vícios da bebida, do álcool, do fumo, da corrupção financeira, dos desvarios das ideologias “libertadoras”, do crime, do assalto, do roubo… Sem o Sal de Cristo o mundo fede nas trevas.
“Vós sois a luz do mundo; vós sois o sal da terra!” Que honra e que glória para cada um de nós batizados poder ser “cristóforo”, “portador de Cristo” e de sua luz para o mundo. Que honra ser testemunha de Cristo, ser arauto de Deus; ser, como disse S. Francisco de Assis, “ a trombeta do Imperador”.
Onde o autêntico cristão chega, ali deve se acender de imediato a luz de Cristo, a luz da justiça, da paz, do amor e da bondade; a luz que traz nos seus raios a cura e a salvação.
O Papa João Paulo II disse certa vez que “sem Jesus Cristo o homem permanece para si mesmo um desconhecido, um mistério inexplicável, um enigma insondável.” Sem Cristo o homem perde a sua identidade; não sabe mais quem ele é; não sabe o que faz neste mundo e não sabe o sentido de nada: da vida, da morte, da dor e da eternidade. Sem Cristo o homem é um “coitado”.
O Papa Bento XVI pediu que sejamos “Discípulos e Missionários de Jesus Cristo para o mundo.” Não somente discípulos, mas também missionários; por isso cada cristão deve estar envolvido em um trabalho missionário, engajado em um Movimento, em sintonia com a pastoral da diocese.
Seja um cristão de verdade, seja evangelizador. Ninguém está dispensado disso. Inclusive ajudando com recursos a quem evangeliza. O Papa Paulo VI disse um dia que “quem ajuda na evangelização tem os mesmos méritos do evangelizador”. São Paulo nos lembra: “Ai de mim se eu não evangelizar”! (1 Cor 9,16). O Apóstolo lembra que isso não é um “título de glória” para ele, mas uma missão, uma obrigação. Quando o profeta Jeremias foi enviado por Deus para pregar sua palavra, ficou com medo e disse: “Ah! Senhor JAVÉ, eu nem sei falar, pois que sou apenas uma criança. Replicou porém o Senhor: Não digas: Sou apenas uma criança: porquanto irás procurar todos aqueles aos quais te enviar, e a eles dirás o que eu te ordenar.Não deverás temê-los porque estarei contigo para livrar-te. E o Senhor, estendendo em seguida a sua mão, tocou-me na boca. E assim me falou: Eis que coloco minhas palavras nos teus lábios”. (Jer 1,1-10).
Essa palavra é para cada um de nós. E devemos nos lembrar que quando falamos de Jesus, Ele vai conosco. “Eis que estou convosco todos os dias até o fim do mundo” (Mt 28,20) . Sem medo!

Prof. Felipe Aquino

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

O Ecumenismo - Exigências para Unidade


                "A única Igreja de Cristo (...) é aquela que nosso Salvador depois de sua Ressurreição, entregou a Pedro para que fosse seu pastor e confiou a ele e aos demais Apóstolos para propagá-la e regê-la... Esta Igreja, constituída e organizada neste mundo como uma sociedade, subsiste na (‘subsistit in’) Igreja Católica governada pelo sucessor de Pedro e pelos Bispos em comunhão com ele’: O Decreto sobre o Ecumenismo, do Concílio Vaticano II, explicita: ‘Pois somente por meio da Igreja católica de Cristo, 'a qual é meio geral de salvação', pode ser atingida toda a plenitude dos meios de salvação. Cremos que o Senhor confiou todos os bens da Nova Aliança somente ao Colégio Apostólico, do qual Pedro é o chefe, a fim de constituir na terra um só Corpo de Cristo, ao qual é necessário que se incorporem plenamente todos os que, de que alguma forma, já pertencem ao Povo de Deus”.” 816
                    “Na realidade, ‘nesta una e única Igreja de Deus, já desde os primórdios, surgiram algumas cisões, que o Apóstolo censura com vigor como condenáveis. Dissensões mais amplas nasceram nos séculos posteriores. Comunidades não pequenas separaram-se da plena comunhão com a Igreja católica, por vezes não sem culpa de homens de ambas as partes’. As rupturas que ferem a unidade do Corpo de Cristo (distinguem-se a heresia, a apostasia e o cisma) não acontecem sem os pecados dos homens: Onde estão os pecados, aí está à multiplicidade (das crenças), aí o cisma, aí as heresias, aí as controvérsias. Onde, porém, está à virtude, aí está à unidade, aí a comunhão, em força disso, os crentes eram um só coração e uma só alma.” 817
                     “Os que hoje em dia nascem em comunidades que surgiram de tais rupturas ‘e estão imbuídos da fé em Cristo não podem ser argüidos de pecado de separação, e a Igreja católica os abraça com fraterna reverência e amor... Justificados pela fé recebida no Batismo; estão incorporados em Cristo, e por isso com razão são honrados com o nome de cristãos e merecidamente reconhecidos pelos filhos da Igreja católica como irmãos no Senhor’.” 818
                    “Além disso, ‘muitos elementos de santificação e de verdade existem fora dos limites visíveis da Igreja católica’: ‘A palavra escrita de Deus, a vida da graça, a fé, a esperança, a caridade, outros dons interiores do Espírito Santo e outros elementos visíveis’ O espírito de Cristo serve-se dessas igrejas e comunidades eclesiais como meios de salvação cuja força vem da plenitude de graça e de verdade que Cristo confiou à Igreja católica. Todos esses bens provêm de Cristo e levam a Ele e chamam, por eles mesmos, para a ‘unidade católica’.” 819
                      “A unidade, ‘Cristo a concedeu, desde o início, à sua Igreja, e nós cremos que ela subsiste sem possibilidade de ser perdida na Igreja católica e esperamos que cresça, dia após dia, até a consumação dos séculos’. Cristo dá sempre à sua Igreja o dom da unidade, mas a Igreja deve sempre orar e trabalhar para manter, reforçar e aperfeiçoar a unidade que Cristo quer para ela. Por isso Jesus mesmo orou na hora de sua Paixão, e não cessa de orar ao Pai pela unidade de seus discípulos: ‘... Que todos sejam um. Como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, que eles estejam em nós, a fim de que o mundo creia que tu me enviaste’ (Jo 17,21). O desejo de reencontrar a unidade de todos os cristãos é um dom de Cristo e convite do Espírito Santo.” 820
                     “Para responder adequadamente a este apelo, exigem-se: uma renovação permanente da Igreja em uma fidelidade maior à sua vocação. Esta renovação é a mola do movimento rumo à unidade. a conversão do coração, ‘com vistas a viver mais puramente segundo o Evangelho’, pois e a infidelidade dos membros ao dom de Cristo que causa as divisões; a oração em comum, pois ‘a conversão do coração e a santidade de vida, juntamente com as preces particulares e públicas pela unidade dos cristãos, devem ser consideradas a alma de todo o movimento ecumênico e, com razão, podem ser chamadas de ecumenismo espiritual’; conhecimento fraterno recíproco, a formação ecumênica dos fiéis e especialmente dos presbíteros; diálogo entre os teólogos e os encontros entre os cristãos diferentes Igrejas e comunidades; a colaboração entre cristãos nos diversos campos do serviço aos homens.” 821
                     “A preocupação de realizar a união ‘diz respeito à Igreja inteira, fiéis e pastores’. Mas é preciso também ‘ter consciência de que este projeto sagrado, a reconciliação de todos os cristãos na unidade de uma só e única Igreja de Cristo, ultrapassa as forças e as capacidades humanas’. Por isso depositamos toda a nossa esperança ‘na oração de Cristo pela Igreja, no amor do Pai por nós e no poder do Espírito Santo’.” 822
                     “O Batismo constitui o fundamento da comunhão entre todos os cristãos, também com os que ainda não estão em comunhão plena com a Igreja católica: ‘Com efeito, aqueles que crêem em Cristo e foram validamente batizados acham-se em certa comunhão, embora não perfeita, com a Igreja católica. (...) Justificados pela fé no Batismo, são incorporados a Cristo e, por isso, com razão, são honrados com o nome de cristãos e merecidamente reconhecidos pelos filhos da Igreja católica como irmãos no Senhor’. ‘O Batismo, pois, constitui o vínculo sacramental da unidade que liga todos os que foram regenerados por ele’.” 1271

                     “A missão da Igreja exige o esforço rumo à unidade dos cristãos. Efetivamente, ‘as divisões entre cristãos impedem a Igreja de realizar a plenitude da catolicidade que lhe é própria naqueles filhos que, embora lhe pertençam pelo batismo, estão separados da plena comunhão com ela. Não só isso, mas também para a própria Igreja se torna tanto mais difícil exprimir, na realidade de sua plena catolicidade sob todos os aspectos’.” 855

sábado, 17 de outubro de 2015

A Fé Católica


Em sua primeira carta, São Pedro nos chama a atenção para “estarmos preparados a responder a todo aquele que nos pedir a razão da nossa esperança” (citação livre de I Pd 3,15). A nossa esperança é Jesus Cristo! O mesmo São Pedro, no discurso aos judeus, disse: “Em nenhum outro há salvação, porque debaixo do céu nenhum outro nome foi dado aos homens, pelo qual devamos ser salvos” (At 4,12).
A fé católica e toda a sua vivência estão centradas em Jesus: “Ele é o Senhor” (citação livre de Fl 2,11). Contudo, o próprio Jesus instituiu Sua Igreja e quis que ela fosse o Seu próprio Corpo Místico (cf. I Cor 12,27)- sacramento universal da salvação de todos os homens. O próprio Senhor resgatou a Sua Igreja com o Seu Sangue; confiou-lhe o sagrado depósito da fé e deu a ela o Seu Espírito para conduzi-la a toda a verdade (cf. Jo 16,13). O Espírito Santo é a alma e a garantia da infalibilidade da Igreja, no que concerne à doutrina católica. Nos dois mil anos de caminhada, o Espírito conduziu a Igreja do senhor e ensinou-lhe todas as coisas, recordando-lhe tudo o que Jesus ensinou (cf. Jo 14,26).
No Credo – símbolo dos apóstolos – encerra-se conteúdo dogmático básico da fé católica. Já no início do cristianismo, “perseveravam eles [os fiéis] na doutrina dos Apóstolos, nas reuniões em comum, na fração do pão (Eucaristia) e nas orações” (At 2,42). Essa doutrina dos apóstolos está encerrada no Credo, nossa profissão de fé.
Além dos dogmas iniciais, sob a luz do Espírito, a Igreja estruturou todo o arcabouço da fé, sob o comando de Pedro, a quem o próprio Senhor garantiu a infalibilidade, reconhecida de modo definitivo no Concílio Vaticano I (1870). Na pessoa do Papa, a Igreja entendeu que é vontade do Senhor ter o Seu vigário na terra como pedra fundamental da unidade da Sua Igreja. Por isso, a obediência e a submissão ao Papa são características essenciais do catolicismo. Sem o Papa não existe a Igreja. Os antigos padres afirmavam: “Onde está Pedro, está a Igreja; onde está a Igreja, está Cristo.”
Outra característica da fé católica é a devoção aos santos, principalmente à Virgem Maria, Mãe de Jesus e nossa Mãe. Jesus no-la deu aos pés da cruz, dizendo a João: “Eis aí tua mãe” (Jo 19,27b). Essa foi uma doação de Jesus à Sua Igreja e a cada um de nós. Maria é nossa Mãe! Nós, católicos, não a adoramos, pois ela não é uma deusa; nós a veneramos como Mãe muito querida e preocupada com o bem de cada um de seus filhos salvos por Jesus. Sem Maria, Virgem, Imaculada, Mãe de Deus, levada ao céu de corpo e alma, não há catolicismo.
Outro sinal de autenticidade da fé católica são os sete sacramentos, de modo especial a confissão (penitência) auricular e a Eucaristia (comunhão). Através da confissão, Jesus limpa e purifica a Sua Igreja com o Seu próprio Sangue redentor. Através da Eucaristia, nutre os Seus com a Sua própria Carne, Sangue, Alma e Divindade.
A fé católica está baseada na Bíblia, é lógico! Contudo, apoia-se também na tradição e nos magistério dirigido de modo infalível pela cátedra de Pedro. A tradição consiste em tudo o que a Igreja viveu e aprendeu sob a luz do Espírito Santo nesses dois mil anos de vida. O sagrado magistério é todo imprescindível ensinamento acumulado durante os séculos e oficializado pelo Papa. A tradição e o magistério da Igreja garantem a interpretação autêntica da revelação bíblica e constituem a fonte da riquíssima vida litúrgica da Igreja, através da qual prestamos ao Senhor toda a honra, glória e louvor.
A liturgia é também uma das fontes  características da fé católica. O calendário religioso é enriquecido pela vivência litúrgica de suas festas: Advento, Quaresma, Páscoa, Pentecostes, Santíssima Trindade, Corpus Christi, Tempo Comum, etc. É toda a vivência religiosa acumulada pela tradição e ensinada pelo magistério da Igreja.
Além disso, a fé católica é também preservada pela hierarquia sagrada. Sagrada sim, pois foi da vontade de Jesus que ela existisse. Ele quis fundar a Sua Igreja sobre a rocha de Pedro (Kefas) e dos apóstolos, que são os bispos. Por isso, não há Igreja sem o Papa e sem os bispos. Bem sabia o Senhor que, sendo também humana, Sua Igreja não sobreviveria sem a hierarquia. O desrespeito à hierarquia é um desrespeito àquele que a instituiu e uma ameaça à unidade da Igreja.
Esses são os principais sinais da fé católica, queridos por Jesus e preservados pela Sua Igreja. Quem não guarda essas características não pode se dizer católico.
Prof. Felipe Aquino


quarta-feira, 14 de outubro de 2015

A Palavra de Deus é viva e eficaz!

“Ler a Sagrada Escritura significa pedir o conselho de Cristo.” São Francisco de Assis

Por ser Palavra de Deus, a Bíblia nunca envelhece, nem caduca; ela fala-nos hoje como para além dos séculos. Cristo é o centro da Sagrada Escritura. O Antigo Testamento o anuncia em figuras e na esperança; o Novo Testamento o apresenta como modelo vivo.
Devemos compreender que a Bíblia é a Palavra de Deus escrita para os homens e pelos homens;logo, ela apresenta duas faces: a divina e a humana. Logo, para poder interpretá-la bem é necessário o reconhecimento da sua face humana, para depois, compreender a sua mensagem divina.
Nas Sagradas escrituras encontramos força e ensinamentos para diversas situações em nossas vidas.
Leia hoje, um CONSELHO de DEUS para você, QUE:
Está perdendo as esperanças: Rm 12, 12-16; Sl 125,6; Sl 55,5
O remorso o corrói:  Fl 3,13 -14
Está passando por humilhações: Eclo 2, 2-4; 1Pd 5,5-6
Sente-se abatido pelos inimigos: Mt 5,38-39.44; 6,14
Precisa dar o perdão a alguém: Mt 18,21-22
Sente-se desanimado: Fl 4,13, Mac 3,18
Sente Sente-se fraco e abatido: 2Cor 12,9-10; Mc 9,23
Passa por um momento de dúvidas: Jo 11,40; Sl 16,3; 36,3-7
Está aflito: Mt 11,28-30
Passa por grande sofrimento: Lc 9,23; Rm 8,18
Permite que a raiva invada seu coração: Tg 1,19-20; Rm 12,14; Ef 4,26
Deixa-se dominar pelo medo: Lc 8,50; Rm 8,31; Sl 26,1
Sente-se sufocado pelas preocupações  da vida: 1Pd 5,7; Mt 6,30-31
Luta contra a tentação: 1 Cor 10,13
Sente-se provado em sua fé: Tg 1, 12; 1Pd 4, 12; Eclo 2,5
Está triste: Fl 4,4; Eclo 30, 22-26
Tem um coração agradecido: 1Ts 5,16-18
enfraquecida sua fé: Rm 1, 17, Hb 12,6




quarta-feira, 7 de outubro de 2015

O pão e o vinho têm significados particulares?


O pão e o vinho têm, certamente, significados especiais. De fato:
O pão e o vinho são alimento, comida, sustento: isto nos faz compreender que, assim como a nossa vida física tem necessidades de ser constantemente alimentada, assim a nossa vida espiritual tem necessidade de ser nutrida com o alimento que Jesus no dá: o seu Corpo e o seu Sangue.
Além disso, o pão e o vinho são, como diz o sacerdote durante o Ofertório da Santa Missa, fruto da terra e do trabalho humano. Portanto é toda a criação que está presente, sintetizada no pão e no vinho, e que participa deste mistério da transubstanciação no Corpo e no Sangue de Cristo.
O pão, formando por muitos grãos de trigo, e o vinho, feito com muitos bagos de uva, encerram também um sentido de união: tornam-se pão os grãos moídos, tornam-se vinho os bagos esmagados graças à união, unificação. Tudo isto indica que também nós, que participamos do Banquete Eucarístico, por mias numerosos que sejamos, devemos nos tornar um só pão, um só vinho, quer dizer, devemos formar, unidos em Cristo, um só corpo, como nos diz São Paulo: <> (1 Cor 10, 17). A Doutrina dos Doze Apóstolos (“Didaqué”), um livro composto por volta do ano 100, traz em uma de suas orações esta afirmação: <> (IX, 4).

<> (Bento XVI, Homilia do Corpus Domini, 15-6-06).
E mais, o pão e vinho indicam a fadiga humana, o trabalho quotidiano de quem cultiva a terra, colhe as espigas e os cachos de uva e os transforma em pão e vinho. Estes alimentos simbolizam todos os vários trabalhos que os homens realizam para satisfazer suas exigências pessoais, familiares, sociais. Todo o trabalho humano é santificado deste modo.
Deus realiza o seu mistério de comunhão com os himens escondendo-se sob as espécies consagradas do pão e do vinho, que, sendo frutos da terra e do trabalho do homem, evidenciam a colaboração harmoniosa do homem com a Criação e, ao mesmo tempo, antecipam os Novos Céus e a Nova Terra que Deus, em Cristo realizará no fim do mundo. Desse modo a Criação demonstra que aspira, para além de si mesma, a algo maior…
Por que usam pão e vinho no Banquete Eucarístico?
Usam-se pão e vinho porque assim o fez Jesus na Última Ceia, na Quinta Feira Santa, e a Igreja não pode mudar esta decisão de Cristo. Respeita-a desde há dois mil anos e a respeitará até o fim do mundo.
Retirado do livro: “Eucaristia, Pão de vida eterna”, Ed. Cléofas e Ed. Cultor de Livros


sábado, 3 de outubro de 2015

A raiz de todo sofrimento


“Perdemos o Paraíso, mas recebemos o Céu, pelo que o ganho é maior que a perda”. São João Crisóstomo
A Revelação de Deus por meio da Bíblia e da Tradição da Igreja, nos ensina que por causa do pecado da desobediência ao Criador, nossos primeiros pais perderam a “graça santificante” que lhes dava uma comunhão íntima com Deus, e perderam também o estado de “justiça original” que garantia a harmonia do homem com Deus, com a mulher, consigo mesmo e com a natureza. Se se mantivesse fiel a Deus e ao modo de vida proposto por Deus (simbolizado pela proibição da fruta da árvore da ciência do bem e do mal, cf. Gn 2,16s) ele não perderia esses dons.
Mas, o homem não quis obedecer a Deus e, por autossuficiência recusou o seu modelo de vida. Pecaram por soberba e desobediência, disseram NÃO a Deus, e sim ao Tentador. Por isso, perdeu o controle de si mesmo e ficou sujeito às suas paixões desordenadas; e o mundo que, por dom de Deus, estava harmoniosamente sujeito ao homem, já não era mais; rompeu-se a serventia das criaturas irracionais ao homem; agora estas o maltratam e esmagam, negam-lhe os frutos da terra e, às vezes até as condições de sobrevivência.
A terra passou, então, a produzir espinhos e abrolhos e agora o homem terá de tirar dela, com o seu suor, o seu sustento. A mulher, por sua vez, dará a luz em dores de parto. O sofrimento entrou no mundo com  o pecado.
“Multiplicarei os sofrimentos de teu parto; darás à luz com dores, teus desejos te impelirão para o teu marido e tu estarás sob o seu domínio.”
“Porque ouviste a voz de tua mulher e comeste do fruto da árvore que eu te havia proibido comer, maldita seja a terra por tua causa. Tirarás dela com trabalhos penosos o teu sustento todos os dias de tua vida. Ela te produzirá espinhos e abrolhos, e tu comerás a erva da terra. Comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de que foste tirado; porque és pó, e pó te hás de tornar…
O Senhor Deus expulsou-o do jardim do Éden, para que ele cultivasse a terra donde tinha sido tirado…” (Gn 3,17-23).
Nas origens da história humana há um Pecado que é responsável pela miséria física e moral que o homem sofre através dos séculos. Como ensina São Paulo:
“Por isso, como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim a morte passou a todo o gênero humano…” (Rm 5,12).
O Papa João Paulo II afirma sem hesitação que:
“Não se pode renunciar ao critério segundo o qual, na base dos sofrimentos humanos, existem implicações múltiplas com o pecado”.
“O mal, de fato, permanece ligado ao pecado e à morte. E, ainda que se deva ter muita cautela em considerar o sofrimento do homem como consequência de pecados concretos (como mostra precisamente o exemplo do justo Jó), ele não pode, contudo, ser separado do pecado das origens, daquilo que em São João é chamado “o pecado do mundo” (Jo 1,29)” (SD, nº 15).
Assim, conforme a Sagrada Escritura e a doutrina da fé, a origem do mal no mundo está no pecado, no plano moral. E isto fez surgir o mal físico (doenças, mortes, catástrofes, calamidades…).
Para explicar todo o sofrimento que há no mundo São Paulo disse que: “O salário do pecado é a morte” (Rm 6,23).
É pelo pecado, tanto o original quanto os pessoais, que o demônio escraviza a humanidade e a afasta de Deus, fazendo-a sofrer. É por isso que Jesus veio, se encarnou, para “tirar o pecado do mundo” (Jo 1,19). Não foi para outra coisa. Ele aceitou derramar todo o Seu Sangue e sofrer tudo o que sofreu para arrancar do mundo a raiz de todo mal: o pecado.
Prof. Felipe Aquino